Salvador, BA terça-feira, 5 de maio de 2026

Cultura da Exploração

A prática de multiplicar valores em situações extraordinárias, alcançando aumentos de 50%, 100%, 200%, 1.000%, 10.000% ou mais, é o que chamamos aqui de Cultura da Exploração.
Sérgio Almeida Lima
Sérgio Almeida Lima20 de abril de 2026
Cultura da Exploração
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Diante de uma maior demanda, o preço sobe. Isso é normal. Já tranquilizava o grande economista clássico Adam Smith, ao explicar a "mão invisível do mercado" regulando os preços — a chamada lei da oferta e da procura. Fenômenos como eventos esportivos, festas e temporadas turísticas pressionam o mercado e podem elevar valores. Isso é natural e esperado em contextos de escassez.

Entretanto, existe uma linha tênue — e frequentemente ultrapassada — entre a regulação de preços, segundo a lei da oferta e da demanda, e a exploração exagerada do consumidor. A prática de multiplicar valores em situações extraordinárias, alcançando aumentos de 50%, 100%, 200%, 1.000%, 10.000% ou mais, é o que chamamos aqui de Cultura da Exploração.

Quando a escassez vira abuso

O aumento de preços em mercados aquecidos não é, por si só, exploração. No comércio, na indústria ou nos serviços, a lógica econômica indica que a demanda superior à oferta tende a pressionar valores. Isso contribui para o equilíbrio do mercado e sinaliza a necessidade de investimento, concorrência e ampliação da oferta.

O problema surge quando a cobrança ultrapassa o limite do bom senso e dos valores sociais, deixando de ser uma resposta econômica legítima e passando a configurar aproveitamento predatório. Nesse ponto, já não se trata apenas de mercado, mas de ética — e isso não pode ser ignorado.

 O caso da COP30 em Belém (Pará)

Um exemplo recente e emblemático ocorreu em Belém, no Pará, durante a COP30 — conferência global sobre mudanças climáticas realizada em novembro de 2025. A enorme demanda por hospedagem e infraestrutura levou a aumentos expressivos nos preços das diárias de hotéis. Segundo dados do IBGE, o preço médio da hospedagem na capital paraense subiu 155% em novembro, na comparação com outubro, impulsionado pela pressão do evento sobre a oferta local.

 Em casos extremos, plataformas de reserva chegaram a listar propriedades por valores astronômicos, com cifras que superaram R$ 1 milhão para a estadia completa durante o período do evento, gerando intensa polêmica e críticas públicas.

 Em resposta, consumidores, governos e até organizações internacionais se manifestaram, destacando que, em eventos desse porte, práticas abusivas de precificação comprometem a participação e o acesso de delegações, pesquisadores e da sociedade em geral.

 A situação é ilustrativa: a necessidade de acomodação existe e a lei de mercado atua. Contudo, cobrar valores tão distantes da realidade econômica local e do valor efetivamente entregue configura exploração, ao desconsiderar o impacto social e o senso ético.

 Exploração em outras frentes: praias, eventos e mobilidade

O fenômeno não se restringe a grandes conferências. Em temporadas de praia, especialmente em cidades litorâneas brasileiras, taxas e valores de serviços básicos frequentemente disparam, gerando protestos, conflitos e insatisfação popular — como a sobrecobrança em bares e quiosques que ocupam espaços públicos.

 Outro exemplo — que me inspirou a escrever este artigo — ocorreu na Festa do Senhor do Bonfim, em Salvador (BA), em 15/01/2026, quando os chamados "donos da rua", os famosos flanelinhas, cobravam R$ 80,00 para permitir que alguém estacionasse um carro em via pública — um espaço que, por definição, pertence a todos.

 A Cultura da Exploração manifesta-se em diferentes níveis: desde pessoas em situação de vulnerabilidade que buscam sobreviver nas ruas até grandes organizações e modelos de negócios estruturados.

 Também se observa esse fenômeno nas plataformas de mobilidade urbana — como Uber e similares — que utilizam políticas de tarifa dinâmica, elevando os preços quando a demanda supera a oferta de motoristas. O mecanismo pode ser tecnicamente justificável como instrumento de equilíbrio de mercado. No entanto, quando os aumentos se tornam exorbitantes e desproporcionais — especialmente em datas sensíveis ou grandes eventos —, o ajuste deixa de ser razoável e passa a representar aproveitamento da necessidade do cliente.

 Esse cenário se agrava quando tais plataformas ampliam significativamente seu percentual de ganho em detrimento da remuneração dos motoristas, aprofundando ainda mais a percepção de injustiça e desequilíbrio.

 Não se trata de demonizar a tecnologia ou os modelos de negócio — serviços como esses têm enorme valor social —, mas de refletir até que ponto a busca por lucro extremo, em momentos delicados, colide com princípios de equidade, respeito e responsabilidade.

 Exploração versus valores humanos e éticos

A Cultura da Exploração representa mais do que práticas comerciais agressivas. Ela cristaliza comportamentos que:

- Priorizam ganhos excepcionais em detrimento da justiça e da equidade

-Transformam necessidades humanas legítimas em oportunidades de sobrecobrança

- Normalizam a ideia de que o cliente — ou o cidadão — é um alvo a ser explorado

 Essa cultura confronta valores positivos, como:

- Respeito ao cliente

-Ética na precificação

-Responsabilidade social

- Atendimento consciente e humanizado

 Empresários e empreendedores visionários compreendem que lucrar dentro do bom senso fortalece a confiança, a reputação e a sustentabilidade do negócio. Oportunistas podem até colher ganhos no curto prazo, mas perdem autoridade, respeito e, muitas vezes, a própria viabilidade no longo prazo.

 Enfim, a Cultura da Exploração não é apenas uma questão de números ou de economia de mercado. Trata-se de uma reflexão profunda sobre como nos posicionamos diante do outro- seja consumidor, visitante, cliente ou cidadão.

 Todos têm o direito de buscar lucro, e mercados competitivos existem para isso. Contudo, o lucro sustentável e digno nasce da consideração pelo outro, do equilíbrio entre oferta e demanda e do compromisso com valores que vão além do ganho imediato.

 Lucrar é necessário. Explorar em situações delicadas e desproporcionais é prejudicial à sociedade e corrosivo para a reputação de qualquer marca ou organização.

 A pergunta, portanto, não é:

"Quanto posso cobrar?"

A pergunta correta é:

"Isso é justo diante da situação?"

 Que possamos sempre escolher - como líderes, empreendedores ou cidadãos - o caminho que promove justiça, respeito e bom senso, rejeitando a Cultura da Exploração em favor de uma cultura que honra o cliente e serve a comunidade.

 Lembremos sempre: se o objetivo não é apenas ganhar dinheiro a qualquer custo, mas fanalizar o cliente, servindo e conquistando sua mente e seu coração, então, como líderes, não podemos permitir o desenvolvimento da Cultura da Exploração — muito menos a sua prática.

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Sérgio Almeida - Clientologia

Professor, consultor, mentor. Referência nacional no tema Cliente. Idealizador da CLIENTOLOGIA. Autor de 10 livros, com mais de 1 milhão de exemplares vendidos no Brasil e no exterior. 


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Nota: O conteúdo, as opiniões e os textos publicados nesta coluna são de responsabilidade exclusiva do(a) colunista. O Portal Bahia Bahia não se responsabiliza pelas ideias, opiniões, comentários ou posicionamentos expressos, sejam eles de ordem pessoal, política, ideológica ou religiosa.

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Sérgio Almeida Lima

Sérgio Almeida Lima

Especialista em Atendimento e Relacionamento com o Cliente.

Referência nacional no tema CLIENTE. Criador da CLIENTOLOGIA. Autor do best-seller “Ah! Eu não acredito!”, mais de 1,5 milhão de exemplares vendidos.

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