Salvador, BA terça-feira, 5 de maio de 2026
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Sem pressão, não há democracia: o Brasil que ainda não aprendeu a participar

Sem pressão, não há democracia: o Brasil que ainda não aprendeu a participar
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Quando o poder deixa de ser absoluto e passa a ser limitado por leis, surge um elemento essencial para o equilíbrio institucional: a participação organizada da sociedade. É nesse contexto que nasce o conceito de "grupo de pressão", junto com o próprio Estado Democrático de Direito.

Na ciência política, grupos de pressão são organizações da sociedade civil que atuam de forma legítima para influenciar decisões do Estado. Sem disputar eleições, mas exercendo vigilância, cobrança e proposição.

Em outras palavras: democracia não é apenas votar. É, sobretudo, participar com conhecimento e consciência cidadã.

E é exatamente nesse ponto que o Brasil revela uma de suas maiores fragilidades.

Uma cultura que não se organiza

Apesar de possuir uma das maiores bases empresariais do mundo, o país ainda não desenvolveu uma cultura sólida de associativismo. Estima-se que apenas cerca de 8% dos CNPJs brasileiros estejam vinculados a algum tipo de associação empresarial.

Esse dado revela mais do que uma escolha organizacional. Expõe um problema cultural.

Enquanto países como os Estados Unidos consolidaram uma forte tradição de participação cívica, com a sociedade se organizando para tudo, o Brasil ainda carrega uma cultura de passividade.

Aqui, muitas vezes, o cidadão não participa nem das decisões mais próximas, como as do próprio condomínio. E isso tem consequência.

O indivíduo isolado, seja cidadão ou empresário, perde força. Sem articulação coletiva, a capacidade de influenciar, fiscalizar e propor caminhos se enfraquece.

E quando a sociedade se afasta, o vazio é ocupado: corrupção, fiscalização frágil, distanciamento entre instituições e população e captura de estruturas públicas por interesses específicos.

A história brasileira, no entanto, mostra que esse caminho pode ser diferente. A Associação Comercial da Bahia, com mais de dois séculos de existência, é um exemplo concreto do papel transformador do associativismo.

Em diversos momentos, a entidade atuou como uma verdadeira "casa de pressão", organizando a classe produtiva para influenciar decisões, apoiar o desenvolvimento e contribuir com soluções para o país.

Trata-se de um modelo não apenas legítimo, mas essencial para o funcionamento da democracia.

Força que existe, mas não se reconhece

Hoje, o Brasil possui uma estrutura associativa robusta, ainda que subutilizada. Confederações como CACB, CNA, CNC, CNI e CNT reúnem cerca de 16 milhões de associados. Uma força expressiva que ainda não se reconhece como tal.

Existe, no imaginário coletivo, a ideia de que o empresário "não tem voto" e, portanto, não exerce influência política relevante. Os números mostram o contrário. O que falta não é força; é consciência, organização e direção.

A ausência dessa percepção impede que a classe produtiva exerça plenamente seu papel. E impede que a sociedade compreenda que a participação organizada é o verdadeiro antídoto contra a ineficiência pública e os desvios institucionais.

A democracia participativa não pode continuar sendo um conceito abstrato. Ela precisa se concretizar a partir de indivíduos que se unem, estruturam sua atuação e passam a influenciar, de forma legítima e transparente, os rumos do país.

Esse é o fundamento da consciência cidadã amadurecida: não basta observar; é preciso participar.

O Brasil não precisa de mais discursos sobre democracia. Precisa de prática. Porque, no final, a qualidade das instituições é reflexo direto do nível de participação da sociedade que as sustenta. E sem pressão legítima, organizada e consciente, não existe democracia forte.

No fundo, trata-se de assumir uma responsabilidade que não pode mais ser delegada. Afinal, o futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora.

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Paulo Cavalcanti

Presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia, Empresário, advogado e palestrante. Autor dos livros 'E aí? Isso é da minha conta?'. e Inteligência Cidadã - O que nos falta para transformar

@paulosergiocavalcanti

Fundador da @viacidada 

Presidente da @fundacaopaulocavalcanti


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Paulo Sergio Costa Pinto Cavalcanti

Paulo Sergio Costa Pinto Cavalcanti

Empresário, Advogado, Filósofo e Escritor

Empresário, advogado, escritor e ativista da função social da empresa, ocupa cargos de liderança em entidades como ACB, FACEB, CACB e Sebrae.

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