As pesquisas costumam indicar que a maioria dos brasileiros deseja trabalhar menos e ganhar mais. Não há surpresa nisso. Afinal, ninguém quer perder. Trata-se de uma inclinação natural, quase instintiva. Diante de uma escolha simples, a resposta tende sempre ao benefício imediato.
Mas vale avançar um pouco na reflexão. Se perguntarmos ao povo brasileiro se quer saber quem desviou bilhões dos aposentados do INSS e se deseja ver os responsáveis devidamente punidos, qual seria o resultado? A resposta, novamente, seria evidente. A maioria também se manifestaria a favor. Ou seja, tanto no desejo por melhores condições de vida quanto na exigência por justiça, o sentimento coletivo aponta na mesma direção.
É justamente aí que surge uma contradição difícil de ignorar. Os mesmos deputados e senadores que afirmam não poder se posicionar contra determinadas pautas sob o argumento de que isso custaria votos, foram capazes de votar contra a continuidade das investigações envolvendo o INSS. Quando o tema é popular, acompanham as pesquisas. Quando envolve apuração e possíveis consequências, recuam.
A pergunta que se impõe, portanto, não é complexa, mas é desconfortável. Por que essa diferença de comportamento? Será que não existem pesquisas sobre a indignação da população diante de desvios que atingem aposentados? Ou será que a investigação pode fazer com que algo que não interessa venha à tona, como alguma constatação que comprometa nomes, carreiras ou projetos eleitorais?
Aqui não se trata de uma discussão superficial sobre economia ou de previsões sobre possíveis impactos no mercado de trabalho. O ponto é mais estrutural. Estamos falando do dinheiro de pessoas que trabalharam a vida inteira, de recursos que garantem a sobrevivência de milhões de brasileiros. Mexer no INSS não é uma decisão qualquer. É tocar diretamente na dignidade de quem depende desse sistema para viver.
Quando alguém atua para impedir que a verdade seja plenamente apurada, não está protegendo o país. Está, na prática, protegendo interesses específicos. E essa escolha, ainda que momentaneamente eficaz, não elimina as consequências.
Porque há um elemento na democracia que não pode ser contornado. Pode-se adiar investigações, postergar decisões, evitar desgastes imediatos. Mas não se controla, indefinidamente, o julgamento coletivo. O voto permanece como instrumento final de resposta.
E é nesse ponto que a conta chega. Quem hoje impede que a verdade avance assume, ainda que não perceba, o risco de ser cobrado amanhã. Não por discursos, mas pelas urnas.
Mas essa cobrança não acontece por acaso. Ela depende de um cidadão mais atento, mais consciente, capaz de entender o que está em jogo e de transformar indignação em escolha. Sem esse amadurecimento, a contradição se repete, e quem bloqueia a verdade hoje pode voltar amanhã como se nada tivesse acontecido.
Se o voto é o instrumento que fecha esse ciclo, então é nele que começa a mudança. Porque, no fim, o futuro do Brasil é da nossa conta, e ele começa exatamente na decisão que cada um toma agora.
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Paulo Cavalcanti
Presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia, Empresário, advogado e palestrante. Autor dos livros 'E aí? Isso é da minha conta?'. e Inteligência Cidadã - O que nos falta para transformar
Fundador da @viacidada
Presidente da @fundacaopaulocavalcanti

