O Brasil vive um paradoxo perigoso. Fala-se cada vez mais em aumentar a arrecadação, ampliar políticas públicas e promover justiça social. São objetivos legítimos. No entanto, em meio a esse debate, uma pergunta essencial quase nunca aparece com clareza: quem sustenta essa estrutura?
O alerta feito por Alfredo Cotait Neto, presidente da Confederação das Associações Comerciais e Empresariais do Brasil (CACB), sobre o teto congelado do Simples Nacional ajuda a revelar o problema. À primeira vista, parece um detalhe técnico do sistema tributário. Na prática, é um sintoma de algo maior.
Quando o pequeno empreendedor cresce alguns pontos percentuais e passa a ser penalizado por isso, o sistema transmite uma mensagem clara: cresça, mas não muito. Produza, mas dentro do limite. Ultrapasse a linha e pague o preço. Isso não estimula o crescimento. É contenção disfarçada.
Essa lógica se conecta com um comportamento recorrente do próprio Estado brasileiro, que muitas vezes funciona como um poço sem fundo. Sempre cabe mais um tributo, mais uma obrigação acessória, mais uma exigência regulatória. Em contrapartida, eficiência estrutural, integração entre sistemas públicos e previsibilidade normativa raramente aparecem como prioridade.
Enquanto empresas precisam operar com precisão e cumprir prazos rigorosos, órgãos públicos frequentemente convivem com burocracia lenta e sistemas desintegrados. O resultado é um desequilíbrio evidente: quem produz é pressionado continuamente, enquanto a gestão do sistema raramente enfrenta a mesma intensidade de cobrança.
Nesse cenário, a classe produtiva brasileira funciona como a conhecida galinha de ovos de ouro. É ela que gera empregos, arrecada impostos, sustenta programas sociais e movimenta cadeias inteiras da economia. Mas há um limite claro: quando se sobrecarrega demais quem produz, não se extrai mais riqueza. Mata-se a galinha.
Debates recentes, como a redução da jornada de trabalho, ilustram bem a necessidade de responsabilidade técnica. Não se trata de uma disputa ideológica, mas de cálculo econômico. Qual será o impacto na pequena indústria? No comércio do interior? Na folha de pagamento já pressionada? Sem diálogo com quem sustenta a atividade produtiva, decisões assim podem se transformar em experimentos sociais e experimentos mal calculados custam empregos.
A reforma tributária prometeu simplificação, mas a longa transição, o grande volume de regulamentações e a insegurança interpretativa ainda mantêm o empresário em alerta. O problema brasileiro não é apenas quanto se paga de imposto, mas também como se paga, como se cumpre e como se interpreta.
É importante reconhecer que a classe produtiva brasileira não é desorganizada. O país possui confederações fortes, federações estruturadas e associações empresariais com grande capilaridade. O desafio está no fato de que essas vozes ainda se manifestam de forma fragmentada.
Enquanto cada setor defende isoladamente sua pauta, o sistema continua operando como poço sem fundo. O momento exige amadurecimento institucional, convergência e coordenação estratégica entre as entidades nacionais.
O que está em jogo não é apenas uma pauta corporativa. É o equilíbrio do país. Sem produção não há arrecadação. Sem arrecadação eficiente não há política pública sustentável. Sem ambiente de negócios estável não há crescimento.
Se não houver coordenação e união institucional, o poço continuará sendo cavado, e a galinha de ovos de ouro não resistirá.
Porque desenvolvimento não nasce da fragmentação. Nasce da convergência.
O futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora.
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Paulo Cavalcanti
Presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia, Empresário, advogado e palestrante. Autor dos livros 'E aí? Isso é da minha conta?'. e Inteligência Cidadã - O que nos falta para transformar
Fundador da @viacidada
Presidente da @fundacaopaulocavalcanti

