O debate sobre a redução da jornada de trabalho no Brasil vem sendo conduzido como se vivêssemos em um país de primeiro mundo.
No discurso político, fala-se de produtividade elevada, de equilíbrio entre vida e trabalho e de conquistas sociais típicas de economias maduras. Mas basta olhar para a realidade brasileira para perceber o tamanho da distorção.
O Brasil não é um país de pleno emprego. Não é um país de alta produtividade. E, definitivamente, não é um país onde a maioria dos trabalhadores confia no sistema que deveria garantir seu futuro.
O que vemos, na prática, é o oposto. Milhões de brasileiros que antes estavam no regime tradicional da CLT, com carteira assinada, migraram para o MEI ou para formas mais flexíveis de trabalho.
E essa mudança não aconteceu por acaso. Ocorreu porque, para muitos trabalhadores e contratantes, o modelo formal se tornou pesado, caro, burocrático e cada vez menos confiável.
Ou seja, enquanto o discurso político tenta vender a imagem de um país avançado discutindo redução de jornada, o trabalhador brasileiro está, na prática, reorganizando sua vida fora do sistema que o Estado insiste em defender.
Essa é uma das verdades inconvenientes do momento: o Brasil vive uma combinação perigosa de informalidade crescente, desemprego frequentemente disfarçado por políticas assistenciais, descrédito na previdência e profunda desconfiança na capacidade do Estado de garantir aposentadoria e segurança econômica no futuro.
Diante dessa realidade, muitos trabalhadores fazem uma escolha pragmática. Preferem assumir o risco da autonomia a permanecer presos a um modelo que cobra muito, entrega pouco e promete um futuro cada vez mais incerto.
Mesmo assim, o debate público continua sendo conduzido como se estivéssemos na Alemanha, na Suécia ou na Holanda.
Não estamos. O Brasil ainda enfrenta enormes desafios de produtividade, eficiência do Estado, educação e competitividade econômica.
Ignorar essa realidade e propor mudanças estruturais no mercado de trabalho apenas para produzir um discurso político sedutor pode ter consequências graves. Medidas que parecem progressistas no discurso podem, na prática, empurrar ainda mais trabalhadores para a informalidade.
No fim das contas, o que está em jogo não é apenas a jornada de trabalho. É, sobretudo, a honestidade intelectual no debate público.
O Brasil precisa discutir o futuro do trabalho olhando para os dados, para a realidade e para a vida concreta das pessoas, não para um país imaginário construído em discursos de conveniência política.
Quando políticas públicas são construídas sobre narrativas e não sobre a realidade, quem paga o preço é sempre o mesmo: o trabalhador brasileiro.
Este é o verdadeiro debate que precisamos destacar. Afinal, o futuro do Brasil é da nossa conta. E ele começa agora.
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Paulo Cavalcanti
Presidente do Conselho Superior da Associação Comercial da Bahia, Empresário, advogado e palestrante. Autor dos livros 'E aí? Isso é da minha conta?'. e Inteligência Cidadã - O que nos falta para transformar
Fundador da @viacidada
Presidente da @fundacaopaulocavalcanti

