Poucas coisas são tão contagiantes quanto observar alguém dedicado e apaixonado. É empolgante notar o quanto um ser humano pode ser tomado por uma paixão e se empenhar em sua realização, como é capaz de estudar, discutir, defender, dedicar horas, perder sono, reorganizar agenda e encontrar uma energia que talvez nem soubesse que tinha quando alguma coisa verdadeiramente o mobiliza. A pena nisso tudo é notar a falta de um filtro mais refinado sobre onde ser tão empenhado e apaixonado.
Neste momento estamos vendo pessoas apaixonadas por política, um cientista político em cada grupo de WhatsApp, pessoas verdadeiramente empenhadas na defesa de suas convicções políticas ou dos seus políticos de estimação. Gente que sabe o que o candidato falou ontem, qual entrevista deu, conhece pesquisa, acompanha debate, assiste a cortes, procura argumentos, rebate o amigo, o parente, o colega de trabalho e está disposta a gastar horas defendendo aquilo em que acredita. Aqui eu vou fazer uma ressalva importante: discutir política, buscar informação e criar um bom nível de consciência para votar são coisas necessárias. Existe uma conhecida frase atribuída a Platão, baseada em uma passagem de A República, que diz que uma das penalidades de não participar da política é acabar sendo governado por quem participa. Feita essa ressalva, a questão não está no fato de alguém ser tão empenhado e apaixonado pela política em um período de eleições tão acirradas. O ponto que quero trazer é outro: por que não é assim com a sua vida? Por que não é assim com as coisas que podem mudar a sua vida através da sua ação direta?
Essa pergunta me provoca porque revela uma contradição interessante do comportamento humano. Somos capazes de dedicar uma energia absurda tentando convencer alguém a mudar um voto, mas nem sempre usamos a mesma energia para mudar aquilo que depende exclusivamente de nós. A pessoa passa duas horas discutindo sobre qual projeto econômico seria melhor para o país, mas não dedica trinta minutos para organizar a própria vida financeira. Sabe apontar os erros de gestão de um governo, mas não acompanha os indicadores da própria empresa. Cobra preparo de quem ocupa um cargo público, mas não estuda para ser melhor no cargo que ela mesma ocupa. Defende que o país precisa crescer, mas talvez tenha parado de crescer profissionalmente há anos.
Não estou dizendo com isso que uma coisa exclui a outra. Esse seria um raciocínio raso. Você pode e deve se interessar pelo que acontece no país, na sua cidade e na sociedade em que vive. O que me chama atenção é perceber que muitas vezes colocamos uma quantidade enorme de empenho e paixão em coisas sobre as quais nossa capacidade individual de interferência é limitada, enquanto tratamos com uma displicência enorme aquilo sobre o que temos poder de ação todos os dias.
Imagine se você acompanhasse suas metas com o mesmo interesse com que acompanha uma pesquisa eleitoral. Se estudasse sua profissão com a mesma dedicação com que pesquisa argumentos para defender seu candidato. Se tivesse a mesma disposição para conversar sobre o futuro da sua carreira que tem para discutir o futuro do país. Se ficasse tão incomodado com a sua falta de resultado quanto fica com uma declaração de alguém do outro lado político. Se cobrasse de você a mesma coerência que cobra de quem escolheu para representá-lo.
Talvez descobrisse que empenho nunca foi exatamente o seu problema.
Você consegue se empenhar. A política está mostrando isso. Você consegue pesquisar, estudar, insistir, argumentar, defender uma ideia, enfrentar oposição e continuar falando sobre o assunto mesmo depois de ouvir vários nãos. Você consegue encontrar tempo. Consegue mobilizar emoção. Consegue até perder algumas horas de sono quando alguma coisa realmente importa para você. Portanto, em muitos casos, não estamos diante de uma pessoa sem energia, sem disciplina ou incapaz de se dedicar. Estamos diante de alguém que talvez esteja colocando uma quantidade enorme dessas coisas no lugar errado.
E isso não acontece apenas com política. Acontece com futebol, com a vida dos outros, com discussões nas redes sociais, com séries, com celebridades e com uma infinidade de assuntos sobre os quais desenvolvemos um nível impressionante de conhecimento e dedicação. Nada disso necessariamente precisa deixar de existir. O ponto é perceber quanto da nossa melhor energia está sendo consumida por coisas que pouco devolvem para a construção da vida que dizemos querer.
Porque energia é recurso. Tempo é recurso. Atenção é recurso. Paixão também é recurso. E todos eles são limitados.
Quando você decide onde colocá-los, ainda que não perceba, está decidindo também o que ficará sem eles. Cada hora investida em uma discussão interminável é uma hora que não estará disponível para alguma outra coisa. Cada assunto que ocupa a sua mente ocupa um espaço que poderia estar sendo utilizado para pensar, aprender, construir, planejar ou executar algo que depende diretamente de você.
É aí que entra o filtro que mencionei no começo deste texto. Não precisamos ser menos apaixonados. Talvez precisemos apenas ser mais criteriosos com aquilo que recebe a nossa paixão.
Eu gosto de gente empenhada. Gosto de quem se envolve, de quem acredita, de quem coloca energia naquilo que faz. A apatia nunca construiu muita coisa. Mas empenho sem direção pode produzir uma pessoa extremamente ocupada e apaixonada por assuntos que não alteram em nada a realidade que ela reclama todos os dias.
Talvez valha aproveitar toda essa capacidade que você já demonstrou possuir e direcionar uma parte dela para você. Apaixone-se pelo seu crescimento. Empenhe-se na sua profissão. Estude o seu negócio. Acompanhe suas metas. Discuta suas estratégias. Defenda os seus sonhos com a mesma convicção com que defende suas opiniões. Tenha argumentos para explicar onde quer chegar e, principalmente, tenha ações compatíveis com aquilo que diz querer.
Continue discutindo política se isso é importante para você. Continue exercendo sua cidadania, formando sua opinião e fazendo suas escolhas.
Só não coloque nas mãos de quem vencer uma eleição a responsabilidade por construir uma vida que continua dependendo, em grande parte, do que você fará quando a eleição acabar.

