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A FORÇA DE CADA PASSO

Quero alertar você que me lê que não estou falando sobre corrida ou sobre bicicleta. Estou falando sobre a sua vida e a minha.
André Cardoso
André Cardoso29 de setembro de 2026
A FORÇA DE CADA PASSO
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Quem escreve colunas, newsletters ou blogs sempre tem, ou ao menos tenta ter, uma série de temas sobre os quais quer escrever. Alguns, os mais organizados, conseguem até ter textos prontos com uma antecedência significativa em relação às suas publicações. Confesso que tento ser essa pessoa e falho miseravelmente. O máximo que consigo é ter o texto da próxima semana já escrito numa quinta ou sexta. Mas existem temas que simplesmente brotam diante de nós e furam a fila até do texto que já possa estar pronto. Foi assim com este texto de hoje. Ele me atravessou diante de uma cena que surgiu diante dos meus olhos.


Estava eu no domingão em uma das minhas caminhadas pela orla de Salvador, coisa que amo fazer, pois gosto de estar próximo ao mar, sentir o sol na pele e estar em movimento com esse ambiente emoldurando tudo. Ao longo da caminhada, mesmo com os fones de ouvido e uma boa música compondo todo aquele processo, comecei a perceber sirenes e buzinas vindas da pista ao meu lado. Notei também pessoas agitadas na calçada e na rua, com seus celulares apontados para alguma coisa que vinha detrás de mim. Gente gritando, aplaudindo, vibrando, buzinas, sirenes e, lógico, tudo aquilo despertou em mim a reação natural de olhar para trás e tentar entender o que estava acontecendo. Cheguei a pensar que, por estarmos em plena reta final de campanha eleitoral, poderia ser algum candidato se aproveitando da orla lotada. Para minha alegria, não era nada disso.


Com a chegada do verão é muito comum termos corridas ao longo da orla, algumas fechando a pista mais próxima à praia, e naquele domingo não foi diferente. Tinha acontecido uma dessas corridas que, pelo que pude perceber, já havia se “encerrado” há pelo menos 40 minutos, talvez mais. E aí voltamos para a cena das buzinas, sirenes e do povo filmando, gritando e aplaudindo. As buzinas e sirenes vinham de quatro motos que escoltavam três retardatários que, mesmo sabendo que a corrida já havia acabado, mesmo sabendo que estavam muito, mas muito atrás dos últimos colocados, escolheram não desistir e reafirmaram o compromisso de chegar. E a escolta também não desistiu deles. Veio atrás incentivando, buzinando, acionando as sirenes e chamando a atenção de todos para o esforço daqueles três. Um senhor aparentando seus 60 e poucos anos, uma mulher e outro rapaz. E todos ao redor, tanto os que haviam participado da corrida quanto muitos que sequer estavam nela, entenderam o valor do que viam. Vibravam, fotografavam e filmavam, possivelmente para postar em suas redes.


A mensagem daquela cena era poderosa. Falava de superação e parecia gritar para todos: NÃO DESISTA. Ficava evidente que aqueles três já não estavam competindo com as demais pessoas da corrida. Para todos os outros que tinham atravessado a faixa de chegada muito antes, eles já haviam perdido. Mas eles estavam vencendo todos aqueles que desistiram diante da dor, do cansaço, do sol intenso, da câimbra ou de qualquer outra dificuldade encontrada pelo caminho. E era ainda mais do que vencer quem havia desistido. Era sobre não perder para eles mesmos. Era sobre superar os próprios limites e as próprias dores. Era sobre cumprir aquilo a que tinham se proposto, que era fazer o percurso da corrida. Não importava o tal do pace, não importava a posição e muito menos se ainda teria alguém esperando por eles. Era sobre chegar.


Eles passaram por mim e eu segui minha caminhada em direção ao local onde estava montada a chegada da corrida. Quando cheguei lá, me deparei com a frase escrita no portal: “NO SEU RITMO, CADA PASSO TROUXE VOCÊ ATÉ AQUI.” Aquela frase conversava de maneira íntima com aqueles três e imediatamente me remeteu a uma experiência pessoal que vivi em uma corrida de bicicleta.


Eu ainda morava em Curitiba e tinha o hábito de pedalar pela cidade. Fazia uns 150 a 200 quilômetros por semana e meu pedal mais longo tinha sido de uns 60 quilômetros. Por conta disso, meu amigo e sócio apertou a minha mente, como diria um bom baiano, e me inscreveu numa corrida que era patrocinada pela nossa franquia da Wise Up na cidade. Depois da pressão dele, topei e disse para me inscrever nos 10 quilômetros, já que existiam três faixas de distância. Mas ele foi lá e me inscreveu no intermediário, de 30 quilômetros. Ele, que era e ainda é atleta do pedal, se inscreveu para os 60.


Resumo da história: o pedal que eu estava acostumado a fazer era no asfalto e a corrida acontecia em zona rural, no cascalho, no barro, cheia de subidas e descidas arriscadas. Ao longo do caminho vi muitos ciclistas arrebentados por quedas feias. Vi fratura, sangue escorrendo pela testa e também uma galera sentada no chão sem fôlego para continuar, esperando um caminhão que passava pelo circuito recolhendo os desistentes e os acidentados menos graves. Vi ainda muita gente nas subidas descendo da bicicleta e seguindo a pé, empurrando suas bikes. Foi ali que fiz um acordo comigo sobre quais seriam as minhas três vitórias naquele dia. A primeira era concluir os 30 quilômetros. A segunda, não cair. A terceira, não descer da bicicleta em nenhum momento para empurrá-la. Com esses três acordos comigo mesmo, cruzei a faixa de chegada em último dos últimos. Naquele dia, eu fui um daqueles três que presenciei agora na orla de Salvador. Não competi com os demais. Competia comigo. E não fiz acordo com o fracasso, muito menos com a possibilidade de desistir.


Agora vamos para a corrida da vida. Quero alertar você que me lê que não estou falando sobre corrida ou sobre bicicleta. Estou falando sobre a sua vida e a minha. Estou falando sobre não desistir e sobre fazermos acordos conosco que nos mantenham em movimento sem sair da corrida. Porque a verdade é que as pessoas não partem para as corridas da vida do mesmo lugar. Elas podem até estar posicionadas no mesmo ponto de largada, mas não chegam ali com as mesmas condições físicas, mentais, emocionais, financeiras, familiares, profissionais ou com a mesma preparação. Portanto, raramente partem efetivamente do mesmo lugar.

Talvez por isso olhar o tempo todo para quem está correndo ao nosso lado possa nos fazer perder a percepção do que realmente precisamos vencer. Há momentos em que alguém estará quilômetros à nossa frente. Em outros, seremos nós que estaremos à frente de alguém. Comparar apenas a posição, ignorando de onde cada um partiu, o que carregou durante o percurso e quais condições tinha para correr, pode nos fazer desistir de uma corrida que, na verdade, ainda estamos vencendo.


A faixa de chegada pode ser a mesma, mas só chegaremos nela se respeitarmos nosso ritmo e entendermos que cada passo importa. Não é justa a comparação com pessoas que não estão no mesmo patamar de preparo, experiência ou conhecimento. Faça a sua jornada. Estabeleça seus próprios acordos. Se precisar diminuir o ritmo, diminua. Se precisar reorganizar a estratégia, reorganize. Se precisar recuperar o fôlego, recupere. Só não negocie sobre desistir ou continuar.


Sobre isso, só deve existir uma escolha: chegar.


Primeiro vença a corrida contra os seus próprios limites. Vença a vontade de parar quando ainda existe condição de dar mais um passo. Vença a necessidade de parecer tão rápido quanto os outros. Vença a comparação que faz você desprezar o quanto já percorreu apenas porque alguém percorreu mais.


Depois, se quiser, escolha alguém para competir.


Mas nunca se esqueça daqueles três que chegaram quando a corrida já havia acabado para quase todo mundo. Para eles, ainda não.


Porque enquanto você continuar dando o próximo passo, a sua corrida ainda não terminou.

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André Cardoso

André Cardoso

Diretor de Expansão na Wise Up | Mentor e Palestrante em Vendas, Liderança e Negócios

30+ anos construindo vendas, líderes e negócios. Transformo experiência prática em conteúdo, mentorias e palestras sobre liderança, vendas e comportamento.

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