Mas tem um manual que até hoje eu leio e que, vou confessar a vocês, quanto mais leio, mais vejo que preciso não parar de ler. É assim que eu vejo a Bíblia, como um verdadeiro manual operacional do ser humano, que orienta a melhor forma de uso, sendo o usuário da sua humanidade livre para seguir o manual e buscar a sua melhor forma de uso ou não.
A Bíblia, mesmo quando observada para além da sua perspectiva religiosa e espiritual, traz muita sabedoria que, quando aplicada, tem potencial para melhorar a vida de muitas pessoas. E hoje trago uma palavra que, para quem não é familiarizado com esse manual, dificilmente terá tido contato com ela ao longo da vida, mas que eu afirmo ser imprescindível à vida de qualquer pessoa que queira ir mais longe através das diversas relações e situações a que somos expostos.
Saindo da Bíblia e migrando para o dicionário, vamos entender essa palavra.
Longanimidade significa a virtude de ter paciência longa, brandura e perseverança prolongada para suportar ofensas, dores, provações ou a demora de algo sem perder o controle ou ceder à ira. A palavra vem do latim longanimitas, associada à ideia de ânimo longo. Gosto muito dessa imagem porque ela nos remete a uma capacidade elástica de suportar as pressões sem perder a firmeza de caráter.
Ser longânimo é saber que a vida irá lhe atacar, que pessoas irão lhe desafiar, que a sua paciência será posta à prova todos os dias e, em alguns momentos, várias vezes no mesmo dia. Mas, mesmo diante desses ataques e por mais desafiada que a sua paciência possa ser, você não cede às dores do processo, não cede a todas as provocações às quais possa vir a ser submetido e se mantém firme e resiliente.
O ser longânimo é aquele que, diante da demora para alcançar algo, não se permite perder o controle. É aquele que demora a irar-se ou a ceder à ira. Na Bíblia, essa característica é tão preciosa que aparece em Gálatas entre os nove aspectos do fruto do Espírito de Deus.
Em nossas vidas sempre seremos desafiados e, em muitos momentos, em níveis extremos. No entanto, todas as vezes que nos iramos e perdemos a paciência, acabamos por nos cegar para o que precisa ser feito, perdemos discernimento em nosso agir e reagimos de forma emocional. E isso, em geral, além de não resolver a situação em que entramos, ainda tem o potencial de piorá-la.
Notemos como ter consciência de como precisamos agir diante das diversas circunstâncias nos dá uma vantagem estratégica.
Eu mesmo tenho os meus vários momentos em que situações me confrontam e a ira vem, e vem rápido. Confesso isso a vocês aqui. Mas, por ter lido o manual (rs), me vem à memória que aquela minha reação não é a ideal, não representa o melhor uso da minha humanidade. Naquele instante, usando todos os meus freios, eu me seguro. Seguro a minha ira, saio da armadilha em que a vida ou aquela pessoa possa ter me colocado e aciono a minha longanimidade.
E alguma coisa importante acontece nesse momento: eu assumo o controle sobre mim.
Talvez eu não assuma o controle sobre a situação. Ela poderá continuar exatamente a mesma, com os mesmos fatos, os mesmos problemas e os mesmos personagens. Mas eu não serei o mesmo dentro dela. E este é, para mim, o ponto mais importante de todos, porque isso tem capacidade de alterar totalmente o resultado final.
Sim, porque o que importa é o final. É para ele que eu jogo. E você?
Às vezes, não querer aparentar que está perdendo é justamente o que nos leva à derrota.
Pense em uma discussão, por exemplo. Alguém lhe provoca, você entende que precisa responder imediatamente porque ficar calado parece fraqueza. A outra pessoa aumenta o tom e você aumenta também. Ela avança mais um pouco e você não quer recuar. Depois de alguns minutos, já não estamos mais tentando resolver o problema que iniciou aquela conversa. Estamos apenas tentando vencer o outro. O ego assumiu o comando e o discernimento foi embora.
Talvez a longanimidade esteja justamente na capacidade de entender que você não precisa vencer todos os minutos para vencer no final.
Isso vale para uma discussão, para um casamento, para uma sociedade, para uma carreira, para a liderança de pessoas e também para aqueles objetivos que demoram muito mais do que gostaríamos para serem alcançados. Há coisas na vida que simplesmente não respeitarão a nossa pressa. Você poderá fazer tudo certo e ainda assim precisar esperar. Poderá plantar, cuidar, trabalhar e não colher no tempo que imaginou.
O que você fará enquanto aquilo que deseja não chega?
É aí que a longanimidade deixa de ser apenas paciência e passa a ser força de caráter.
Pensar no longo prazo é essencial. Quando olho para a origem da palavra e para essa ideia de ânimo longo, encontro duas coisas que fazem muito sentido para mim: ÂNIMO e LONGO. A própria palavra parece nos lembrar que a jornada pode ser longa e que, para atravessá-la e vencer, haverá necessidade de manter o ânimo durante o caminho.
Não basta começar animado. Talvez seja relativamente fácil ter bom ânimo quando tudo está acontecendo como planejado, quando as pessoas correspondem às nossas expectativas e quando os resultados aparecem. O desafio começa quando demora, quando alguém nos fere, quando somos provocados, quando a resposta não chega e quando a vida decide não obedecer ao cronograma que criamos para ela.
É nessa hora que descobrimos o tamanho do nosso ânimo.
Longanimidade, portanto, não é passividade. Não é aceitar tudo. Não é permitir que façam qualquer coisa com você. Muito menos ausência de força. Para mim, é justamente o contrário. É possuir força suficiente para não precisar utilizá-la de qualquer maneira. É não entregar a outra pessoa, a uma circunstância ou à demora de um resultado o poder de decidir quem você será naquele momento.
Talvez uma das maiores demonstrações de força que alguém possa desenvolver seja essa capacidade de continuar sendo senhor de si quando tudo ao redor está tentando tirá-lo do lugar.
A vida continuará nos provocando. Pessoas continuarão nos testando. Algumas coisas continuarão demorando mais do que gostaríamos.
A questão é quanto tempo dura o nosso ânimo.
Porque algumas vitórias não serão conquistadas por quem corre mais rápido, mas por quem consegue permanecer inteiro por mais tempo.

