Vivemos em uma sociedade construída sobre a confiança. Confiamos no motorista que conduz um ônibus, no médico que realiza uma cirurgia, no piloto que decola um avião, em um amor que idealizamos como perfeito para o resto de nossas vidas, em uma amiga que estava sempre do nosso lado e na hora que você acha que mais precisava te apunhala pelas costas, no líder que orienta uma equipe e nas pessoas a quem entregamos nossos sonhos, nossos projetos e, muitas vezes, o nosso coração.
A confiança é uma das forças mais poderosas das relações humanas. Ela nos permite avançar, criar conexões, formar famílias, construir empresas e desenvolver comunidades. Mas existe uma pergunta inevitável: em quem ou em quê estamos depositando a nossa confiança?
Recentemente, uma tragédia amplamente compartilhada nas redes sociais trouxe essa reflexão de forma dolorosa. Em questão de segundos, uma decisão, uma distração ou a ausência de um elemento essencial transformou um momento de expectativa em uma perda irreparável.
A cena nos confronta com uma verdade desconfortável: muitas vezes estamos tão concentrados na emoção do momento ou muitas vezes "cegos" no nosso ego inflamado que deixamos de perceber aquilo que realmente sustenta a vida.
O sociólogo e filósofo polonês Zygmunt Bauman escreveu que vivemos em uma sociedade marcada pela fragilidade dos vínculos e pela constante busca por experiências ou prazeres imediatos. Em um mundo acelerado, somos estimulados a confiar na aparência, na velocidade e na sensação de controle. Entretanto, a vida insiste em nos lembrar que nem tudo aquilo que parece seguro realmente é.
Na psicologia, a confiança é definida como a disposição de se tornar vulnerável acreditando que alguém ou algo corresponderá às nossas expectativas. Trata-se de uma necessidade humana fundamental. Estudos demonstram que relações baseadas na confiança contribuem para o bem-estar emocional, reduzem os níveis de estresse e fortalecem os vínculos sociais.
Por outro lado, a ausência ou a quebra da confiança pode gerar ansiedade, sofrimento emocional, isolamento e impactos profundos na saúde mental. Eu vivi isso e continuo vivendo!
Mas existe uma dimensão ainda mais profunda dessa discussão. Nem toda confiança depositada é merecida.
Ao longo da vida, confiamos em pessoas que nos decepcionam, em estruturas que falham, em promessas que não se cumprem e até em nossas próprias certezas, que se revelam frágeis diante das circunstâncias.
É por isso que a reflexão ultrapassa o campo das relações humanas e alcança a esfera espiritual. O texto bíblico de Efésios 5:14 traz um chamado contundente:
“Desperta, tu que dormes.”
Não se trata apenas de acordar fisicamente. É um convite para despertar a consciência, rever prioridades e enxergar aquilo que realmente importa. Afinal de contas a vida é breve e não sabemos se amanhã acordaremos. E dar valor ao que não tem valor nos afasta da nossa verdade e de quem somos.
Quantas vezes corremos atrás de metas, reconhecimento, status ou conquistas sem perceber que estamos negligenciando os fundamentos que sustentam a nossa existência dentro da nossa essência?
A confiança pode nos levar a grandes realizações. Mas a confiança mal direcionada também pode nos conduzir ao sofrimento, ao arrependimento e, em casos extremos, à própria morte.
A história da humanidade está repleta de exemplos de pessoas que confiaram cegamente em sistemas, líderes, ideologias ou circunstâncias e descobriram tarde demais que estavam construindo sobre bases frágeis.
Jesus, ao encerrar uma de suas parábolas mais conhecidas, faz uma comparação impactante: há quem construa sua casa sobre a areia e quem a construa sobre a rocha. A diferença entre ambas só se torna evidente quando chegam os ventos, as tempestades e as enchentes. A vida também funciona assim.
Enquanto tudo está bem, qualquer fundamento parece suficiente. É nos momentos de crise que descobrimos onde realmente colocamos a nossa confiança. A pergunta, portanto, não é se confiamos. Todos confiamos em algo ou em alguém .
A pergunta é: qual é a base da nossa confiança?
Porque aquilo em que confiamos determina as decisões que tomamos, os caminhos que seguimos e, muitas vezes, o destino que alcançamos.
Em tempos de distrações constantes, talvez o maior ato de sabedoria seja parar, refletir e avaliar se estamos entregando a nossa vida ao que é passageiro ou ao que é eterno.
Afinal, algumas escolhas produzem consequências temporárias.
Outras ecoam para sempre.
E você? Em quem ou em quê tem depositado a sua confiança?
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July Lopes é educadora, colunista, empreendedora e especialista em posicionamento e presença. Acredita que grandes transformações começam quando aprendemos a alinhar propósito, identidade e valores.

