A ancestralidade não é um resquício do passado, mas o mapa do destino. Nela residem as rotas que pavimentaram o solo que hoje nos sustentam. O Junho Lilás nos convoca a olhar o idoso como guardião desse saber. Absorver a experiência que carrega uma linguagem própria. Os comportamentos mudam e os perfis de homens e mulheres ganham nova musculatura. A palavra deve ser ponte, jamais o abismo entre as diversas gerações. A comunicação deve ganhar novos contornos.
Hoje, por vezes, ao menos cinco tempos distintos coabitam sob o mesmo teto e sociedade. A intergeracionalidade é o espelho onde refinamos o autoconhecimento. Não se limita ao lar; é um pacto civilizatório de reconhecimento mútuo. Contudo, a violência contra a velhice germina no descuido do verbo. A linguagem que cobra e insulta aniquila a autoestima e a dignidade.
O golpe direcionado contra o idoso atenta contra o próprio tempo futuro de cada indivíduo, independentemente de raça, credo, nível de escolaridade ou cor. O agressor é, em essência, aquele que mais carece de aprendizado. Ao ferir quem envelheceu, ele desfere golpes contra sua própria rota. É a cegueira de quem não compreende a finitude e a herança humana. É o inconformismo com relação a seu próprio espelho.
Os questionamentos, certamente são inúmeros quanto à essa fase da vida e como nos comunicamos com ela, primeiro conosco e, depois, com os nossos e com a sociedade. No contexto, as descobertas constantes no caminho da evolução humana, não somente físicas, mas mentais. Sendo assim, buscamos nos localizar em novas formas de comunicação, linguagens.
Com relação aos perfis comportamentais, sempre vêm a pergunta: o perfil comportamental do idoso seria algo estático? Ao envelhecermos, apenas cristalizamos hábitos, positivos ou não? A existência prova que a personalidade é um fluxo em constante transformação. Mudamos. O perfil comportamental também muda com as novas trajetórias. Hábitos se moldam e temperamentos se ajustam à cadência do corpo. Negar essa mudança é negar a própria evolução da consciência. Se o ser se transforma, a comunicação deve seguir essa
metamorfose. Não se dialoga com o idoso de hoje como com o jovem de outrora. O respeito exige a calibração da fala à nova subjetividade do outro. A velhice não é um declínio, mas uma nova forma de estar no mundo. É preciso lucidez para ouvir o que a maturidade tenta nos ensinar. O Junho Lilás recorda que o amanhã é construído pelo olhar de hoje. A proteção do idoso é a salvaguarda da nossa identidade futura. Que o acolhimento substitua o estigma e a palavra cure o insulto. Pois o destino de todos é o encontro inevitável com o entardecer.

