Há um sentimento que eu considero dos mais corrosivos que existem: o não perdão. Ele corrói primeiro quem carrega, depois quem está ao redor, e por último corrói até a memória do que realmente aconteceu. O não perdão é um mofo emocional. Vai se espalhando silenciosamente até que a pessoa já não consegue mais enxergar nada sem o filtro da mágoa.
Esses dias vivi uma situação que me fez pensar muito sobre isso. Tivemos uma falha de sistema em um evento e uma palestrante acabou sendo prejudicada porque sua palestra não aconteceu como deveria. Falha nossa, problema nosso, responsabilidade nossa. A vida adulta é isso: às vezes a gente erra, às vezes o sistema cai, às vezes o planejamento perfeito vira um desastre em cinco minutos. Acontece. Com todo mundo que trabalha, que produz, que realiza eventos, que lida com pessoas e com tecnologia. Essa pessoas era cliente e sentou em frente a mim, como se eu fosse aquele bandidinho dos anos 90 que ela estava acostumada a lidar. Me parecia que estava meio senil mesmo, pela idade.
Ficamos sabendo que ela não havia enviado sua palestra para a produção do evento, em tempo hábil, como todos os palestrantes fizeram, 'passando' antes no painel, etc. Ela nos acusou de tê-la sabotado. Oi? Quem sabota um cliente? Falta de bom senso e, quem sabe, falta de empatia mesmo. Quando surgiu um novo evento, fizemos o que qualquer pessoa minimamente sensata faria: convidamos novamente a palestrante para refazer a palestra, como forma de reparar o problema, de consertar a situação, de demonstrar respeito pelo trabalho dela. Não era obrigação, era caráter.
Não era contrato, era consideração. A resposta veio curta, seca e cheia de orgulho: que ela só erra uma vez, que não iria repetir, e que nós fôssemos felizes. Confesso que li e senti uma tristeza profunda, mas não pela resposta em si. Fiquei triste pela pessoa. Porque quem não perdoa vive preso para sempre ao pior momento que viveu com alguém. Ao mesmo tempo senti alívio, por saber que aquela pessoa havia morrido, ressuscitou e morreu de novo, para mim. Sou geminiana e deleto coisas e pessoas facilmente. Me perdoem.
E eu tenho certeza absoluta que essa pessoa vai bater no peito e contar essa história para outras pessoas que pensam exatamente como ela, dizendo com orgulho a grande resposta que deu, como se fosse uma demonstração de força, de personalidade, de posição. Provavelmente vai ouvir aplausos, concordâncias e frases do tipo “é isso mesmo”, “tem que ser assim”, “você está certa”. E assim vão se criando pequenas plateias de pessoas que aplaudem durezas, mas não constroem pontes. O não perdão é uma prisão sem grades.
A pessoa acha que está punindo o outro, mas está apenas se condenando a carregar a lembrança ruim para sempre. Quem perdoa se liberta. Quem não perdoa carrega o evento, a falha, o erro e a mágoa como uma mala pesada que nunca mais larga. E o mais curioso de tudo isso é que vivemos numa época de discursos tão bonitos sobre empatia, sobre apoio, sobre união, sobre sororidade, sobre redes de apoio, sobre dar a mão, sobre crescer juntos… mas na prática, o que mais vemos são pessoas que não conseguem atravessar uma falha, um erro, um problema, uma frustração. O discurso é coletivo, mas o coração continua individualista e cheio de pedras.
A vida é longa demais para a gente colecionar inimigos por causa de erros. E curta demais para a gente perder oportunidades de recomeçar relações, parcerias e histórias por causa do orgulho. Gente madura não é a que nunca erra. Gente madura é a que sabe pedir desculpa, a que sabe consertar, e principalmente, a que sabe perdoar. Isso não é porque estou querendo pagar de santa. Não, é achar feio demais mesmo um dia bater palmas para aquela senhora que demonstrava tanta empatia, sororidade, sensibilidade e agora saber que tudo é balela. Balela! Seja feliz a senhora, dentro das suas algemas (tão conhecidas) mentais e carcaça com devaneios retroativos de uma juventude já esquecida e mal vivida. No final das contas, o perdão não é um presente que você dá ao outro.
O perdão é um presente que você dá a si mesma. Porque o rancor é um veneno que a pessoa toma esperando que o outro morra. Mas quem vai morrendo por dentro, aos poucos, é quem escolheu não perdoar. E ela, por uma bobagem tão irrelevante ainda não conseguiu superar e ser GRANDE, atendendo ao nosso convite, deve carregar muitas cargas. Coitada. E eu sigo acreditando, mesmo depois de tudo, que vale mais a pena ser a pessoa que convida de novo, que tenta reparar, que estende a mão, do que ser a pessoa que responde com orgulho e fecha portas. Porque portas fechadas fazem barulho.
Mas consciência tranquila faz silêncio. E eu sempre vou preferir dormir em paz do que ter razão.
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Helena Silveira
Pedagoga, Empresária, Especialista em Adm. e Marketing/Terapias Cognitivo Comportamentais, Artesã (Apaixonada por crochê)
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