Sem sombra de dúvidas, raça é um elemento fundamental em toda jornada de sucesso. Ter raça significa ter garra, coragem, força de vontade e até resiliência para lutar pelos seus sonhos e propósitos. Errado é achar que raça é tudo, que ela é tudo de que precisamos para vencer.
Recentemente assisti a um vídeo de uma entrevista onde um lutador amador de MMA conversava com um lutador profissional. Olhando para os dois do ponto de vista físico, o amador tinha mais corpo, aparentando ser fisicamente mais forte, e ao longo da conversa ele, cheio de autoconfiança, raçudo na melhor expressão da palavra, declarou que se subisse num tatame com aquele profissional resistiria pelo menos 30 segundos sem ser finalizado. Pela dinâmica do programa, os dois foram levados ao tatame, e mesmo com toda a raça que lhe era peculiar e visível nas atitudes e presente no discurso, o amador durou apenas 4,6 segundos até ser finalizado. Deixando evidente a diferença brutal de nível que havia entre os dois.
O que eu trago para vocês a partir desse vídeo é que quando se investe pesado em desenvolver técnica, com treino e prática diários, com empenho, dedicação e disciplina, sendo orientado por quem sabe mais, se submetendo ao processo de lapidação, evolução e transformação, você passa a jogar um outro jogo, em outro nível, onde quem só tem raça não é páreo para quem se preparou. Bater no peito e gritar eu tenho raça é bacana, é legal, tem até um efeito psicológico interessante para si e contra os adversários, mas isso só dura até a falta de investimento em dominar tecnicamente aquilo cobrar a conta.
No MMA, quando a raça encontra a técnica, a pessoa da raça bate três vezes ao se ver imobilizada e sem chance de sair e reagir, desistindo do confronto. E você, já se pegou cheio de raça para fazer as coisas, mas sendo imobilizado pela vida e tendo que bater três vezes e desistir por perceber que não estava efetivamente preparado para aquele desafio? Pois bem, esse é o momento em que a sua raça precisa ser guiada para o lugar certo, que não é necessariamente para o combate, mas para pagar o preço de se submeter ao processo de treinamento, de se permitir ser confrontado pelo que você não sabe, não domina, e que precisa aprender. Treinar até dominar, ao ponto de tornar o desafio fácil, exige muita raça, garra, coragem, força de vontade e extrema resiliência, porque é esse treino, com esse nível de entrega, que vai te levar a superar as dificuldades e a lutar pelos seus objetivos sem precisar bater para desistir.
E aqui está uma distinção que eu considero essencial, porque existe raça guiada e existe raça desperdiçada, e a diferença entre as duas não está na intensidade, está no destino que cada uma recebe. A raça guiada é aquela que a pessoa direciona para dentro da sala de treino, para dentro do processo, para dentro da repetição exaustiva que ninguém vê e ninguém aplaude, é a raça que aceita ser corrigida, que aceita apanhar do próprio processo de aprendizado antes de apanhar do adversário de verdade. Já a raça desperdiçada é aquela que se esgota inteira na hora de falar, na hora de se exibir, na hora de bater no peito diante dos outros, sobrando muito pouco dela para o momento em que realmente importa, que é o momento do confronto, seja ele no tatame, no mercado, numa negociação ou dentro da própria rotina de quem persegue um objetivo. A pessoa com raça desperdiçada não é menos corajosa, muitas vezes é até mais barulhenta do que a pessoa preparada, só que ela gastou a coragem no lugar errado, gastou no discurso o que deveria ter guardado para o treino.
Existe uma frase que afirma que quanto mais duro for o treino, mais fácil será o jogo. Mas às vezes a raça da pessoa é tão grande que deixa de ser raça boa e positiva e se torna apenas ego, orgulho e vaidade de achar que dá conta de tudo, que treinar é para os fracos e que isso não é para você. Força supera talento na maioria esmagadora das vezes, isso é um fato da vida. Mas nem força nem talento superam alguém que se preparou para aquilo. A pessoa de força, de raça, acha que só precisa disso e faz tudo no braço. O talentoso acha que o talento é tudo de que precisa e que a qualquer momento esse talento resolverá tudo. Ambos não poderiam estar mais errados, porque ao encararem alguém preparado, serão confrontados pelos próprios limites.
E aqui está o ponto que fica depois que o vídeo termina e a reflexão continua. Raça sem preparo é combustível sem motor, é energia que existe, que é real, que até impressiona quem está de fora, mas que não tem para onde direcionar a própria força, e por isso se queima rápido e sem resultado. Ela até acelera o primeiro impulso, até sustenta a bravata inicial, até convence os outros e até convence a própria pessoa por alguns segundos, mas não sustenta o confronto real, porque o confronto real não pergunta o quanto você quer, pergunta o quanto você treinou, não pergunta o quanto você acredita em si mesmo, pergunta quantas vezes você já foi corrigido, quantas vezes você já apanhou dentro do processo antes de precisar apanhar diante de quem está avaliando se você é páreo ou não.
Guarde a sua raça para o lugar certo. Não para o discurso, não para a bravata, não para convencer quem está assistindo de fora. Guarde a sua raça para o treino, para a correção, para o processo silencioso e muitas vezes humilhante de se tornar tecnicamente capaz daquilo que você um dia vai precisar entregar sob pressão. Porque no dia do confronto de verdade, seja ele qual for, só vai sobrar em pé quem transformou raça em preparo, e não quem apenas confiou que a raça, sozinha, seria suficiente.

