Como superar o medo de dar errado?
A primeira coisa que eu acho importante desmontar é a ideia de que existe alguma trajetória de valor, em qualquer área da vida, em que alguém tenha pulado a etapa do erro. Isso simplesmente não existe. Todo professor um dia foi aluno, todo campeão já foi novato, todo sábio já foi ignorante, todo chefe já foi auxiliar e, entre o ponto onde cada uma dessas pessoas começou e o ponto onde chegaram, existe uma estrada inteira feita de tentativa, erro, ajuste, repetição, amadurecimento e correção.
O problema é que muita gente olha para quem já domina alguma coisa e compara esse resultado consolidado com o seu próprio começo, e isso é profundamente injusto consigo mesma. Você olha para alguém que está há 10, 20 ou 30 anos fazendo determinada coisa, vê a segurança, a técnica, a postura e o resultado, e se cobra por ainda não conseguir entregar aquilo que essa pessoa levou anos para construir. É uma comparação cruel porque ignora todo o processo, ignora os tombos, os constrangimentos, os erros feios, as decisões ruins e tudo aquilo que foi necessário para formar a pessoa que hoje você admira.
Eu, particularmente, nunca fui uma pessoa paralisada pelo medo de errar. Coragem e ousadia sempre foram características muito presentes em mim, às vezes até demais rs, mas isso não quer dizer que eu tenha vivido sem medo. A diferença, talvez, esteja numa crença que fui construindo ao longo da vida, a de que sou capaz de aprender com aquilo que estiver diante de mim. E quando você passa a acreditar nisso, o erro deixa de ser uma sentença sobre quem você é e passa a ser parte do caminho para quem você ainda está se tornando.
Eu também nunca comprei completamente essa ideia de que é preciso aprender tudo antes de agir, porque boa parte do que sei hoje eu aprendi em movimento. Aprendi fazendo, errando, acertando, observando a reação das pessoas, ajustando a rota e tentando novamente. Muitas vezes, no mesmo dia, eu conseguia errar uma coisa pela manhã e acertá-la melhor à tarde porque o erro já tinha me ensinado alguma coisa.
Já vi pessoas extremamente talentosas travarem completamente não por falta de capacidade, mas porque estavam esperando algum resultado para só então acreditarem que eram capazes. E essa lógica está invertida, porque o resultado que elas queriam usar como prova normalmente só existiria depois que elas se colocassem em exposição, depois que corressem o risco, depois que errassem algumas vezes e depois que ajustassem o caminho.
Quem espera a prova para depois se arriscar nunca vai se arriscar, porque a prova que essa pessoa está buscando geralmente só existe do outro lado do risco que ela está evitando.
É claro que existem áreas onde essa lógica precisa ser tratada com responsabilidade. Na medicina, por exemplo, ninguém quer um profissional aprendendo um procedimento complexo no improviso, usando você como experiência prática. Existem conhecimentos que precisam vir antes, existem protocolos, supervisão, formação e limites que não podem ser ignorados. Mas mesmo nesses ambientes, o conhecimento que hoje chega organizado, testado e disponível para ser ensinado foi construído por alguém antes.
Alguém observou, testou, errou, corrigiu e transformou experiência em conhecimento para quem veio depois.
Então, quando você diz que tem medo de errar, vale a pena parar e investigar em que lógica esse medo está apoiado. Muitas vezes ele nasce da ideia de que você não pode errar, que não deveria errar ou que errar provaria que você não é capaz. Só que nada disso se sustenta quando confrontado com a realidade. Ninguém nasceu sabendo, ninguém cresceu sem passar por algum nível de exposição e ninguém desenvolveu domínio sem atravessar uma curva de aprendizado.
Talvez o que esteja faltando não seja coragem, mas um pensamento mais justo sobre o que significa aprender.
Na próxima vez que o medo aparecer, em vez de simplesmente obedecer ao que você está sentindo, pare e pense. O que exatamente estou temendo? Errar? Ser julgado? Parecer incompetente? Perder dinheiro? Ser rejeitado? E, principalmente, essa exigência que estou colocando sobre mim é justa ou estou me cobrando como se tivesse obrigação de dominar aquilo que ainda estou aprendendo?
Em geral, o medo cresce muito quando não é confrontado. Ele se alimenta da falta de reflexão, da pressa, da imaginação e da cobrança. Quando você ilumina esse medo com lógica, experiência e consciência, ele tende a perder força.
Você não precisa nascer sabendo, precisa se permitir aprender. E se realmente estiver disposto a aprender, vai precisar também aceitar que errar em algum momento do caminho não diminui quem você é, apenas mostra que você ainda está em construção.

