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Quando o objetivo vira o limite

Antes de correr atrás do próximo cargo, da próxima meta, do próximo título, vale parar e fazer a pergunta certa. Eu quero o evento ou eu quero viver o que vem depois do evento?
André Cardoso
André Cardoso04 de agosto de 2026
Quando o objetivo vira o limite
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Todos nós, em algum nível, temos metas e objetivos, sonhos a serem alcançados e realizados, e comumente só enxergamos os problemas e as frustrações quando eles não são alcançados. Mas o que muita gente não percebe, e isso na prática só pode ser percebido por quem chega lá, são os riscos de alcançar uma meta ou um objetivo.


E aqui eu já sei que tem gente franzindo a testa, achando que estou viajando, porque como assim pode haver problema em realizar algo desejado? Mas o problema que eu quero trazer aqui não é o de alcançar. É o que acontece depois de alcançar.


Vamos lá. Ao longo da minha trajetória acompanhei, seja como testemunha ou como agente ativo do processo, inúmeras pessoas alcançando, através de um plano de carreira, os diversos cargos que estavam à disposição delas, fosse supervisão, gerência ou diretoria. Vi pessoas lutarem como leões para, por exemplo, se tornarem gerentes, o tão sonhado primeiro cargo executivo. Vi gente pagando altos preços, perseverando meses, quando não anos, para chegar naquela conquista onde a comissão quase dobrava em relação ao cargo anterior. Ou seja, elas passariam a ganhar quase literalmente o dobro fazendo o que já faziam, sem aumentar volume, esforço ou quantidade. Da noite para o dia, ao alcançar a meta, a realidade financeira mudava como num passe de mágica.


Só que, nesse tão sonhado estágio, uma maioria esmagadora era acometida de uma síndrome que eu chamo de gerentite aguda. Uma síndrome marcada por pessoas perderem exatamente a performance que as levou até o cargo. De repente, quem era acometido desse mal não conseguia mais manter o padrão de produtividade que tinha antes, a ponto de anular a própria conquista financeira, mantendo o mesmo patamar de ganho de antes da ascensão, e em alguns casos até ganhando menos.


Eu sei que parece loucura. Mas vamos entender isso direito, para que você consiga evitar esse mal.


Existem algumas coisas que precisam ser observadas com cuidado, e eu destaco primeiro a sensação de esvaziamento que vem depois de uma conquista.


Vamos ilustrar com alguém que queria muito casar. Mas queria mesmo, sonhava com aquilo de verdade, e em algum momento realizou o sonho, casou. Aqui eu te faço uma pergunta. O evento casamento em si é a grande conquista, ou é apenas um ponto de passagem para viver o casamento de verdade? A resposta óbvia é que o evento é apenas um marco, um ponto de passagem para viver o estar casado de verdade. 

Só que muita gente enxerga o casamento como sendo o evento, e depois se frustra com o estar casado, porque nunca almejou a rotina do casamento, o estar casado em toda a sua extensão.


Da mesma forma que no casamento, muita gente que busca crescimento profissional busca apenas o título, o cargo, o estar gerente, e não o ser gerente na extensão da palavra. E ao conquistar o título, o cargo, essas pessoas se esvaziam dos motivos que as levaram até ali, porque o que elas queriam mesmo já foi entregue, o crachá, o nome no cargo, e o resto, que era o trabalho de verdade de ser aquilo, nunca esteve no radar delas.


Pare e pense. Quantas coisas você já fez de forma rasa, sem de fato querer o todo que ter acesso àquilo significava, e que ao conquistar, você simplesmente se esvaziou e não viu mais sentido em estar ali? Pode ser entrar numa faculdade, entrar numa empresa, alcançar um cargo, conquistar uma pessoa. Reflita sobre isso com honestidade.


A importância dessa reflexão é para que você deixe de ser essa pessoa rasa no seu querer, para que, ao conquistar algo, essa conquista não se transforme na sua sentença de morte, no seu próprio limite, impedindo você de explorar as fronteiras que existem depois dali.


Precisamos entender conquista não como conquista, mas como ponto de passagem. Pensar de maneira muito clara, conquistei isso, conquistei esse patamar, ótimo, mas agora qual é o próximo estágio que essa conquista me permite ter acesso? Esse pensamento tira da conquista a sensação de estação final, e ao invés de esvaziar, ele preenche por completo, renova e motiva a continuar fazendo, porque nada foi efetivamente conquistado no sentido de terminado. Apenas uma etapa, parte de um processo muito maior, foi vencida.


E é justamente aí que mora o risco que ninguém avisa. A gerentite aguda não nasce de preguiça, nem de incompetência súbita. Nasce do fato de que, quando o objetivo era raso, quando a pessoa queria apenas o título e não o que o título de fato exigia dela, a chegada ali esvazia o motor que a movia. Sem motor, a performance cai. E quando a performance cai, a própria conquista começa a ruir por dentro, mesmo que por fora ainda pareça intacta.


Por isso, antes de correr atrás do próximo cargo, da próxima meta, do próximo título, vale parar e fazer a pergunta certa. Eu quero o evento ou eu quero viver o que vem depois do evento? Porque se a resposta for só o evento, o risco de esvaziamento já está armado, esperando o dia em que a conquista finalmente chegar.

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André Cardoso

Diretor de Expansão na Wise Up | Mentor e Palestrante em Vendas, Liderança e Negócios

30+ anos construindo vendas, líderes e negócios. Transformo experiência prática em conteúdo, mentorias e palestras sobre liderança, vendas e comportamento.

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