Por definição, o imponderável é aquilo que não pode ser previsto. Um acontecimento, uma circunstância, um fator que escapa a qualquer antecipação e a qualquer controle.
E existe algo curioso na relação do ser humano com essa palavra. Passamos a vida inteira tentando eliminar o imponderável da nossa existência. Nos preparando para todas as situações que conseguimos projetar. Antecipando cenários. Calculando riscos. Montando planos e planos de contingência. Queremos ser exímios jogadores do xadrez da vida, capazes de enxergar o maior número possível de jogadas à frente.
E é preciso reconhecer que muitos de nós somos extremamente bons nisso.
Criamos ambientes controlados, onde a pressão e a temperatura já estão previstas. Onde as variáveis estão mapeadas. Onde sabemos, com razoável precisão, o que vai acontecer e como vamos responder.
Isso parece sabedoria. E em parte é. Mas existem dois prismas que quase ninguém para para analisar.
O primeiro é uma pergunta desconfortável. Esse ambiente controlado que criamos é realmente saudável? Ou em algum momento ele se tornou a nossa prisão, ao ponto de já não sabermos mais viver fora dele?
O segundo é ainda mais provocador. Por que tememos tanto o imponderável? E mais do que isso, por que não investimos em nos tornar hábeis justamente nele?
Vamos destrinchar os dois.
Comecemos pelo ambiente controlado e se ele é saudável ou não.
Quando criamos um ambiente controlado, o fazemos erguendo barreiras e limites que decidimos não ultrapassar. E o problema é que, ao não ultrapassar esses limites, também não desenvolvemos os anticorpos necessários para viver fora deles.
Pense numa criança cujos pais não a deixam ir ao chão. Que não a deixam andar descalça. Que limpam móveis e piso com antibactericida o tempo todo, com a intenção genuína e amorosa de proteger o filho de germes e bactérias, mantendo tudo estéril para ele viver e brincar.
O que existe nesse ato de cuidado extremo é uma consequência que ninguém enxerga de imediato. O organismo daquela criança está sendo configurado para viver apenas dentro daquele ambiente. E isso a torna extremamente frágil fora dele.
Porque é exatamente o contrário do que a intuição sugere. Quando pisamos no chão, na terra, quando nos expomos aos microorganismos dos mais diversos ambientes, nosso corpo é obrigado a criar defesas.
A desenvolver imunidade. A se fortalecer. O sistema imunológico se constrói no contato com aquilo que o desafia, não na ausência dele.
Ambientes controlados demais, portanto, tendem a nos tornar frágeis fora deles.
E essa fragilidade tem um desdobramento natural. Em muitos casos, o ambiente controlado artificialmente se transforma em prisão. Não porque alguém nos prendeu ali. Mas porque não sabemos mais viver e agir fora daquele espaço que nós mesmos criamos para nos sentir seguros. A segurança que buscávamos vira limitação. A proteção vira cárcere. E o que era para nos preservar acaba nos aprisionando.
Agora vamos ao segundo prisma. E aqui precisamos partir de um fato concreto e inegociável.
O imponderável não pode ser evitado.
Em algum momento, ou em vários momentos, ele vai acontecer. À revelia da nossa vontade, dos nossos planos, do nosso controle. Porque a verdade que a arrogância humana insiste em ignorar é simples.
Apenas Deus é o Senhor de tudo. Eu não sou. Você também não é. Não controlamos tudo. E, sendo honestos, mal controlamos aquilo que achamos controlar.
Diante desse fato, existe uma escolha estratégica a ser feita.
Podemos continuar gastando toda a nossa energia na tentativa impossível de controlar tudo. Ou podemos investir em desenvolver uma habilidade muito mais valiosa e muito mais realista. A habilidade de saber sentir, viver e reagir diante dos acontecimentos e das circunstâncias que não previmos.
Porque é exatamente aí que a vida faz a sua verdadeira seleção.
O imponderável vai acontecer na vida de todos. Na vida de quem teve sucesso e na vida de quem fracassou diante dele. O acontecimento em si não é o que separa uns dos outros. Todos são atingidos. A diferença não está no que aconteceu.
Está em como cada um reagiu.
Está em como cada um estava preparado, mental e emocionalmente, para lidar com aquilo que não estava no roteiro. Esse tempo de resposta, essa capacidade de reação, funciona exatamente como o sistema imunológico diante de uma bactéria.
Se o seu sistema foi forjado no contato com o mundo real, se foi exposto, desafiado e fortalecido ao longo do tempo, ele reage mais rápido e com mais eficácia. Neutraliza a ameaça antes que ela se espalhe. Se adapta. Se recupera.
Mas se o seu sistema foi mantido em ambientes controlados demais, protegido em excesso, poupado de todo desconforto, ele será frágil. Sensível. Extremamente suscetível a qualquer organismo estranho que apareça. Vai colapsar diante do primeiro imprevisto de maior porte, não porque o imprevisto era invencível, mas porque nunca desenvolveu a capacidade de enfrentá-lo.
Essa é a analogia que muda a forma de encarar a vida.
A pessoa que se protege de todo desafio, que evita todo desconforto, que constrói para si uma existência sem exposição, acredita estar se cuidando. Mas está, na verdade, se enfraquecendo. Está criando um sistema interno incapaz de responder quando a vida inevitavelmente cobrar uma resposta.
E a vida sempre cobra.
Por isso, talvez a maturidade não esteja em construir um mundo onde o imponderável nunca aconteça. Isso é impossível e, mais do que impossível, é empobrecedor. A maturidade está em desenvolver dentro de si a força, a flexibilidade e o preparo emocional para atravessar o imprevisto quando ele chegar.
Não se trata de buscar o caos por buscar. Trata-se de parar de fugir de todo desconforto como se ele fosse inimigo. Porque é no contato com o difícil, com o inesperado, com aquilo que nos tira do ambiente controlado, que construímos a robustez interna que nos permite não apenas sobreviver ao imponderável, mas responder a ele com maturidade.
Quem quer controlar tudo vive tenso, frágil e refém do próprio medo do imprevisto.
Quem desenvolve a capacidade de reagir bem ao que não pode prever vive com uma serenidade diferente. A serenidade de quem sabe que não controla tudo, mas confia na própria capacidade de atravessar o que vier.
E essa, no fim das contas, é uma das formas mais profundas de força que um ser humano pode desenvolver.
Não a força de evitar a tempestade.
Mas a força de permanecer de pé no meio dela.

