O levantamento é assinado pelo IBEVAR em parceria com a FIA Business School e usa 11 anos de dados mensais para projetar três cenários possíveis para o câmbio nos próximos meses.
A técnica aplicada é a VAR, sigla para Vector Autoregression, método que capta as relações dinâmicas entre câmbio, inflação e consumo doméstico ao longo do tempo, permitindo simular como um choque em uma variável se propaga pelas demais nos meses seguintes.
Assim, o modelo foi calibrado com dados de janeiro de 2015 a maio de 2026 e incorpora taxa de câmbio, IPCA de comercializáveis, vendas do varejo, Selic e preço do petróleo Brent. A partir dessa base, os pesquisadores submeteram o sistema a três choques cambiais distintos, ligados aos desfechos possíveis da disputa tarifária aberta em julho de 2025 e agravada pela nova rodada de tarifas de 25% confirmada em julho deste ano.
Tarifaço testado em três cenários para o câmbio
No cenário batizado de Trégua Precificada, considerado o cenário base, o câmbio fica entre R$ 5,00 e R$ 5,35. A tarifa de 25% entra em vigor, mas isenções para carnes, café, petróleo, aeronaves e minerais absorvem boa parte do choque. O Banco Central corta a Selic aos poucos, sem acelerar, e o conflito no Golfo Pérsico não volta a escalar.
Ainda assim, o câmbio chegou a testar R$ 5,54 durante a rodada de maior tensão. Depois, recuou para a faixa entre R$ 5,07 e R$ 5,18 mesmo após a confirmação da tarifa em quarta-feira (15). Para os pesquisadores, o movimento indica que parte relevante do choque já estava precificada pelo mercado.
Já no cenário de risco, chamado de Espiral da Reciprocidade, o câmbio sobe para a faixa entre R$ 5,50 e R$ 5,90. Nessa hipótese, o Brasil aciona de fato a Lei de Reciprocidade Econômica, e os Estados Unidos respondem com novo aumento automático de tarifa, mecanismo já previsto no decreto americano. O conflito no Golfo volta a escalar, repetindo o padrão observado entre 11 e 14 de julho, quando o petróleo Brent saltou para a faixa entre US$ 81 e US$ 87. Diante da inflação importada mais alta, o Copom pausa os cortes de juros.
Por fim, o cenário de alívio, chamado de Repetição do Recuo, prevê câmbio entre R$ 4,75 e R$ 5,00. A hipótese se apoia em precedente concreto. Na rodada de 2025, Washington isentou setores como aeronaves, energia, suco de laranja e celulose de última hora, mesmo depois de anunciar tarifa de 50%. Se o padrão se repetir, com negociação diplomática reaberta e o Federal Reserve sinalizando corte de juros, o real ganha espaço para se apreciar.
Tarifaço tem repasse limitado à inflação
De acordo com o modelo, o efeito cambial sobre a inflação de comercializáveis só aparece a partir do segundo mês, atinge o pico no terceiro e depois perde força aos poucos, sem desaparecer por completo até o décimo segundo mês.
No cenário de retaliação, uma alta cambial de 12% eleva a inflação em 0,73 ponto percentual ao longo de 12 meses. Na trégua precificada, uma variação de 1,5% no câmbio soma apenas 0,10 ponto percentual à inflação no mesmo período. Já na repetição do recuo, uma queda cambial de 4,5% retira 0,30 ponto percentual da inflação acumulada em um ano.
Tarifaço pesa mais sobre o varejo
Enquanto o repasse à inflação é contido, o efeito sobre as vendas do varejo se mostra desproporcional. No cenário de retaliação, a queda acumulada de 4,56 pontos percentuais nas vendas é mais de seis vezes maior que o efeito sobre os preços. O padrão se repete na direção oposta no cenário de alívio, em que a apreciação cambial de 4,5% libera 1,85 ponto percentual a mais de vendas, quase o dobro do alívio observado na inflação.
Segundo os pesquisadores, o segundo elo da cadeia, que liga inflação à queda no varejo, amplifica o primeiro elo, que liga câmbio a inflação, em cerca de 200 vezes. Na prática, uma variação de preço considerada pequena já é suficiente para mover uma fatia bem maior do consumo das famílias.
Mesmo na trégua precificada, tida como o cenário mais provável entre os três, o custo aparece. Uma variação cambial de 1,5% quase não move a inflação, mas já retira 0,60 ponto percentual das vendas do varejo em 12 meses.

Para Claudio Felisoni, presidente do IBEVAR e professor da FIA Business School, “para o consumidor brasileiro, o recado embutido nos números é direto: pequenas variações de preço já bastam para mudar, de forma desproporcional, o que entra no carrinho de compras”.
Independentemente de qual dos três cenários se confirme nos próximos meses, os pesquisadores apontam a mesma leitura. Será o varejo, e não o índice de preços, quem vai carregar o peso mais visível do tarifaço sobre o consumidor brasileiro.



