Então veio a escassez de memória, que elevou o custo de produção de praticamente todos os dispositivos eletrônicos do planeta. Agora, Zaman não sabe qual será o próximo passo, especialmente em relação aos 1.300 clientes em potencial que já pagaram um depósito de US$ 100 (R$ 518) para a próxima rodada de produção.
O custo da Mono para adquirir 8 gigabytes de um tipo de memória DRAM da Micron saltou de US$ 35 (R$ 181,30), quando o produto ainda estava em desenvolvimento, para US$ 300 (R$ 1.554) atualmente. À frente de uma empresa com apenas três funcionários, Zaman disse que ainda não decidiu se produzirá um segundo lote com aumento de pelo menos um terço no preço ou se lançará um novo modelo com 75% menos memória.
“Mesmo um roteador da nossa categoria perde o custo-benefício se for vendido por US$ 900 (R$ 4.662) ou US$ 1.000 (R$ 5.180)”, disse Zaman à CNBC em entrevista. “Mas teremos de fazer isso ou reduzir o produto ao mínimo possível.”
A experiência de Zaman está se tornando comum em todo o mercado de eletrônicos de consumo, desde dispositivos icônicos como iPads e consoles Xbox até produtos de nicho que mal passaram da fase de testes. Os custos estão disparando devido ao aperto global na oferta provocado pelo boom da inteligência artificial, que levou fabricantes de chips como a Nvidia a consumir volumes cada vez maiores de memória para seus processadores e sistemas avançados.
Mas, enquanto gigantes da tecnologia como Apple e Microsoft, que anunciaram aumentos de preços nesta semana, contam com ampla disponibilidade de caixa, poder de negociação na cadeia de suprimentos e milhões – ou até bilhões – de clientes, um grupo muito maior de empresas enfrenta uma situação potencialmente crítica. A maioria das fabricantes de eletrônicos de consumo opera com margens reduzidas e não consegue elevar preços com segurança em uma economia que já enfrenta pressões inflacionárias.
GoPro, fabricante de câmeras de ação que enfrenta dificuldades, alertou neste mês que pode encerrar suas atividades após os custos de memória aumentarem entre 80% e 115% no fim do primeiro trimestre. Já as ações da fabricante de caixas de som Sonos acumulam queda de 23% neste ano, à medida que os preços da memória pressionam suas margens.
Nabila Popal, analista da IDC, descreveu a situação atual como uma “crise existencial absoluta” para empresas como fabricantes menores de smartphones Android ou “players locais que produzem dispositivos abaixo de US$ 100“.
“Eles não conseguirão obter memória porque os fornecedores estão atendendo apenas aos grandes players”, afirmou Popal.
O ganho da Micron
O outro lado dessa história também ficou evidente nesta semana.
Em seu balanço trimestral divulgado na quarta-feira, a Micron informou que sua receita no período mais recente foi mais de quatro vezes maior, enquanto sua margem bruta mais do que dobrou, passando de 39% para quase 85% em relação ao ano anterior. As ações da Micron subiram 16% após o resultado e acumulam alta de cerca de 800% nos últimos doze meses, acompanhando a valorização de concorrentes como SK Hynix e Samsung.
A Micron informou que o preço médio de venda de sua memória DRAM no terceiro trimestre aumentou mais de 260% em relação ao mesmo período do ano anterior. Sumit Sadana, diretor de negócios da Micron, afirmou em entrevista que a empresa firmou contratos de fornecimento de longo prazo com fabricantes de smartphones e computadores voltados ao consumidor.
“Dedicamos muito tempo pensando em como administrar o negócio, o fornecimento e a distribuição desses volumes escassos entre clientes, segmentos, mercados e regiões para garantir uma abordagem criteriosa, responsável e justa”, disse Sadana.



