Segundo um comunicado divulgado pela empresa na quarta-feira, o valor do acordo “pode ser usado para financiar iniciativas de segurança on-line para jovens, entre outras prioridades estaduais”. Em entrevista ao jornalista David Faber, da CNBC, no programa Squawk on the Street, na quinta-feira, o procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, que liderou a ação ao lado de outros procuradores, afirmou que esse é “o maior valor já pago em um caso como este”.
Ainda assim, Bonta ressaltou que “o ponto central deste caso não são as penalidades financeiras que a Meta está pagando”. Segundo ele, o mais importante são “as práticas comerciais que eles vão mudar e que ajudarão a proteger a saúde mental de nossas crianças”.
O acordo exige que a Meta implemente uma série de medidas de proteção e ferramentas de controle parental para usuários menores de 18 anos do Facebook e do Instagram. A maior parte das medidas deverá permanecer em vigor por 10 anos, e os pagamentos da empresa serão feitos anualmente ao longo desse período, segundo o comunicado.
Na tarde de sexta-feira, a Meta tinha valor de mercado de US$ 1,47 trilhão (R$ 7,6881 trilhões), ligeiramente acima dos US$ 1,45 trilhão (R$ 7,5835 trilhões) registrados no fechamento do mercado na terça-feira.
Para Laura Edelson, professora-assistente de ciência da computação na Northeastern University e pesquisadora da segurança nas redes sociais, muitas das medidas previstas no acordo são promissoras quando o objetivo é tornar a experiência on-line mais segura para usuários jovens.
Em junho de 2026, Edelson foi coautora de um estudo que constatou que quase 60% das ferramentas de segurança oferecidas pelas redes sociais não conseguiam proteger os usuários jovens de maneira eficaz. Outras pesquisas encontraram uma associação entre o maior tempo de exposição às telas e uma pior saúde física e mental entre adolescentes. Segundo a Gallup, cerca de metade dos adolescentes americanos afirma passar pelo menos quatro horas por dia nas redes sociais.
A Meta está longe de ser a única empresa de redes sociais a enfrentar questionamentos sobre sua abordagem à segurança infantil. O TikTok, por exemplo, concordou em pagar US$ 400 milhões (R$ 2,092 bilhões) ao Departamento de Justiça dos EUA em 21 de agosto para encerrar acusações de violação das leis federais de privacidade infantil on-line. O YouTube, que já enfrentou processos semelhantes, lançou em janeiro novas medidas de proteção para adolescentes, incluindo uma ferramenta que permite aos pais estabelecer limites de tempo para o uso do YouTube Shorts pelos filhos.
O acordo com a Meta também estabelece limites diários para o tempo que crianças e adolescentes podem passar no Facebook e no Instagram. Para Edelson, esse é um dos recursos que as pesquisas vêm apontando como potencialmente úteis, embora ela ressalte que as medidas não são necessariamente perfeitas.
A seguir, veja algumas das mudanças previstas para as duas plataformas e a avaliação de Edelson sobre como elas podem afetar a experiência dos adolescentes nas redes sociais.
Novas medidas incluem limite de duas horas por dia
Segundo o comunicado divulgado pela Meta, os novos recursos do Instagram e do Facebook para menores de idade incluem:
- Limite diário de duas horas: o tempo de uso do Facebook e do Instagram será somado para calcular o limite. Os adolescentes só poderão desativá-lo com a autorização dos pais, e o tempo gasto em mensagens não será contabilizado.
- “Modo noturno”: entre meia-noite e 6h, os adolescentes não poderão acessar recursos como o feed, os Stories e os Reels. As mensagens continuarão disponíveis.
- Desativação da reprodução automática: adolescentes e pais poderão desativar a reprodução automática nas duas plataformas. Para continuar vendo conteúdo, será necessário tocar na tela ou deslizar para avançar.
- Remoção das contagens de curtidas e reações: o número de curtidas e reações ficará oculto em todos os tipos de publicação.
- Feed não algorítmico: adolescentes e pais poderão escolher uma versão do feed que não seja personalizada pelos sistemas de recomendação da Meta. Nesse caso, o usuário verá apenas conteúdo de contas que segue ou com as quais tem algum outro tipo de conexão.
- Verificação de idade mais avançada: a Meta usará uma tecnologia mais sofisticada para identificar e remover usuários com menos de 13 anos e garantir que adolescentes de 13 a 17 anos tenham acesso às versões dos aplicativos adequadas à sua faixa etária.
A maior parte das medidas de proteção será implementada nos próximos seis meses, informou um porta-voz da Meta à CNBC Make It. Recursos como a verificação de idade podem levar até um ano para serem implementados.
Segundo o porta-voz, a maioria das novas funções será ativada automaticamente nas contas de adolescentes. Pais e adolescentes, porém, terão de desativar manualmente a reprodução automática e o feed algorítmico nas configurações caso queiram deixar essas opções desligadas.
Edelson considera especialmente promissora a possibilidade de desativar a reprodução automática. Segundo ela, recursos que fazem vídeos e outros conteúdos continuarem sendo reproduzidos automaticamente aumentam o tempo que os usuários passam nas redes sociais. Desativar essa função, portanto, poderia ajudar os adolescentes a passar menos tempo nessas plataformas.
O problema é que deixar essa decisão a cargo dos pais ou dos próprios adolescentes cria uma etapa extra. Na avaliação de Edelson, não é muito realista esperar que crianças passem por várias configurações para desativar um recurso, já que muitas simplesmente não vão fazer isso.
O porta-voz da Meta afirmou que os aplicativos vão lembrar periodicamente os adolescentes de que é possível desativar a reprodução automática caso eles ainda não tenham feito isso.
Edelson observa que as próximas atualizações podem incluir uma opção para interromper a reprodução automática, mas não permitem desativar a rolagem infinita.
Nesse sistema, novos conteúdos são carregados automaticamente quando o usuário chega ao fim da página, incentivando-o a continuar rolando o feed. Para Edelson, essa é uma das principais lacunas das novas medidas.
“É o que vejo como algo realmente ausente aqui”, afirma.
O porta-voz da Meta, por outro lado, argumenta que a rolagem infinita se torna menos preocupante diante do limite de duas horas criado para impedir que adolescentes passem tempo demais rolando o feed.
“Os pais devem conversar regularmente com os filhos sobre as redes sociais”
Outra parte importante do acordo, segundo o comunicado da Meta, é a criação de uma fundação independente de pesquisa sobre redes sociais, com o objetivo de ampliar os estudos sobre o bem-estar dos adolescentes. O acordo também prevê um auditor independente, que “testará e informará aos estados sobre o cumprimento do acordo pela Meta”.
A Meta ainda está definindo os detalhes dessas iniciativas, informou o porta-voz.
Para Edelson, uma fundação desse tipo poderia ajudar os adolescentes a desenvolver uma relação mais saudável com as redes sociais, especialmente se incluísse “alguma forma independente de verificar o que as plataformas estão fazendo e se elas estão realmente cumprindo esses compromissos”.
Para os pais, porém, não existe uma fórmula única para ajudar os filhos a usar as redes sociais de maneira saudável e segura, afirma a pesquisadora.
“A abordagem correta em relação às redes sociais é diferente para cada criança e muda ao longo do tempo, conforme elas passam por diferentes fases de desenvolvimento e ambientes sociais”, diz Edelson.
“Os pais devem conversar regularmente com os filhos sobre como estão usando as redes sociais e ajudá-los a entender o que estão tirando dessas plataformas e como elas fazem com que se sintam.”



