Não se trata de política. Trata-se de consciência e cidadania.
Faço parte dos muitos brasileiros indignados e estupefatos diante de tudo o que acompanhamos, há tantos anos, na história do nosso país. Vivemos um terrível mal: o mal chama-se corrupção.
E até a origem da palavra é reveladora. Corrupção vem do latim corrumpere: romper, quebrar, deteriorar. Ou seja, corrupção é aquilo que quebra o que deveria permanecer inteiro. Quebra a confiança, as instituições, empresas, governos e, principalmente, a esperança das pessoas. Quebra o pacto moral que deve existir entre quem administra e quem é administrado.
No mundo empresarial, felizmente, temos observado uma evolução importante. O chamado compliance — estar em conformidade com leis, normas, princípios e padrões éticos — tornou-se parte indispensável da gestão moderna. No Brasil, um marco importante desse movimento foi a Lei Anticorrupção, de 2013, seguida pelo fortalecimento dos programas de integridade. Hoje, organizações responsáveis estabelecem códigos de ética, canais de denúncia, políticas sobre conflito de interesses, relacionamento com fornecedores, presentes, vantagens e muitas outras situações capazes de comprometer sua independência e integridade.
Isso é extraordinário, porque uma empresa ética gera confiança, e confiança é patrimônio. Uma organização saudável, íntegra e bem administrada tem melhores condições de cuidar dos seus colaboradores, conquistar Clientes, crescer e se perpetuar.
Mas, se exigimos compliance das empresas, por que não devemos exigir um gigantesco COMPLIANCE DA VIDA PÚBLICA?
É justamente aí que nasce o conceito de Cliente Cidadão.
O cidadão paga impostos, financia a estrutura pública e é o verdadeiro mantenedor do Estado. Portanto, tem não apenas o direito, mas o dever de cobrar qualidade, eficiência, transparência, integridade e resultados.
Entra governo, sai governo. Direita, esquerda, centro. Mudam-se os discursos, as cores, as bandeiras e os personagens. Mas uma coisa precisa estar acima de qualquer ideologia: o caráter.
Corrupção não é de direita nem de esquerda. Corrupção é corrupção. Desonestidade não muda de natureza dependendo da bandeira de quem a pratica. A questão fundamental não é ideológica. É ética.
Platão, há mais de dois mil anos, já discutia em A República a necessidade de governantes preparados, sábios e orientados pelo conhecimento do bem. Aristóteles relacionava a boa política à virtude, à justiça e à busca do bem comum. Dois milênios depois, continuamos diante da mesma pergunta:
Quem estamos escolhendo para administrar aquilo que pertence a todos nós?
Façamos um paralelo com uma empresa. Imagine um empresário contratando um diretor financeiro. Ele colocaria centenas de milhões de reais sob responsabilidade de alguém sem competência, experiência ou cuja integridade estivesse sob graves dúvidas? Provavelmente não.
Para contratar um gerente, diretor ou presidente, empresas responsáveis avaliam currículo, capacidade técnica, experiência, referências, resultados, comportamento e valores. Então por que a régua deveria ser menor para escolher alguém que vai administrar uma cidade, um estado ou uma nação inteira?
Quanto maior a responsabilidade, maior deveria ser a régua.
Na minha visão, três critérios deveriam ser inegociáveis.
O primeiro é competência. Administrar um país não pode ser aventura, improvisação ou exercício de popularidade. Gestão pública exige capacidade de escolher pessoas preparadas, montar equipes extraordinárias, estabelecer prioridades, acompanhar indicadores e entregar resultados.
O segundo é compromisso verdadeiro com o bem comum. O governante não pode enxergar o Estado como projeto pessoal de poder. Precisa compreender que está temporariamente ocupando uma posição que pertence à sociedade e que seu objetivo deve ser produzir o maior benefício possível para o maior número possível de pessoas.
O terceiro — e absolutamente inegociável — é integridade. Não basta um líder dizer: “Eu não roubo.” É pouco. Um grande líder deve dizer: “Eu não roubo, não permito que roubem e vou construir mecanismos para prevenir, identificar e combater qualquer corrupção dentro da estrutura que administro.”
Isso é liderança, governança e compliance.
Não existe desenvolvimento sustentável onde a corrupção é tolerada. Quando decisões públicas passam a ser contaminadas por interesses particulares, favorecimentos, desvios ou enriquecimento ilícito, o recurso que deveria chegar à escola, ao hospital, à infraestrutura e à segurança deixa de cumprir sua verdadeira finalidade.
O Brasil não é uma nação pobre de recursos. Temos território, água, agricultura, energia, biodiversidade, riquezas minerais, capacidade empresarial e um povo extraordinariamente empreendedor. Na minha visão, dois dos nossos maiores desafios continuam sendo gestão e integridade.
Imagine o Brasil sendo administrado sobre três pilares:
COMPETÊNCIA. BEM COMUM. INTEGRIDADE.
A partir daí, buscam-se os melhores especialistas para educação, saúde, economia, infraestrutura, segurança, ciência, tecnologia e todas as demais áreas. Não precisamos de salvadores da pátria. Precisamos de instituições fortes e de pessoas competentes e íntegras servindo à sociedade.
E precisamos também discutir o significado verdadeiro de soberania. Muito se fala: “Precisamos defender a soberania nacional.” Perfeito. Mas existe soberania plena quando cidadãos não conseguem exercer livremente seu direito de ir e vir em determinados territórios? Existe soberania plena quando famílias vivem submetidas ao medo do crime organizado, das facções e das milícias? Existe soberania plena quando alguém sai de casa sem saber se voltará com seu celular, seu automóvel — ou com a própria vida?
Soberania começa dentro de casa.
Começa quando o Estado consegue proteger o cidadão.
Por isso, Cliente Cidadão, antes de escolher seu próximo candidato — vereador, prefeito, deputado, senador, governador ou presidente — faça algumas perguntas simples: ele é competente? Tem histórico de realizações? Está cercado de pessoas competentes? Demonstra compromisso real com o bem comum? E, principalmente, tem mãos limpas?
Mas acrescente uma pergunta ainda mais importante:
Ele terá coragem para combater a corrupção inclusive quando ela estiver do seu próprio lado?
Porque combater apenas a corrupção do adversário não é ética. É conveniência.
O Brasil não precisa de mais fanáticos brigando por direita ou esquerda. Precisa de cidadãos conscientes defendendo aquilo que deveria unir qualquer pessoa de bem: ética, justiça, competência, liberdade, segurança, educação, prosperidade e dignidade.
Cliente Cidadão, unamo-nos não em torno de políticos, mas de princípios. Políticos passam, governos passam, partidos passam. Princípios permanecem.
Este país é grande, e seu povo merece viver à altura dessa grandeza. Mas isso começa quando cada cidadão compreende uma verdade fundamental: quem financia o Estado não é súdito. É Cliente Cidadão.
E Cliente Cidadão consciente não idolatra governantes. Escolhe, fiscaliza, cobra e exige. E, acima de tudo, não negocia sua consciência.
Não se trata de direita ou esquerda. Trata-se de fazer o que é direito.
Um grAAAnde fraterno abraço.
Prof. Sérgio Almeida @sergioalmeidaclientologia
Criador da Clientologia
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