No último dia 8 foi comemorado o Dia Internacional da Mulher, data oficializada pela ONU em 1975 e que nasceu de movimentos trabalhistas no início do século XX. A origem da data está diretamente ligada à luta das mulheres por melhores condições de trabalho, igualdade salarial, direito ao voto e respeito em uma sociedade marcada por fortes estruturas machistas.
É uma data importante. Muito importante. Não apenas para as mulheres, mas para toda a humanidade. Afinal, sempre que uma mulher não é reconhecida em seu valor, a perda não é apenas dela enquanto indivíduo. Toda a sociedade perde. Famílias perdem. Empresas perdem. Comunidades perdem. Todos ao redor deixam de receber aquilo que ela poderia oferecer em sua plenitude, com todo o potencial que existe dentro dela.
Mas esse texto não é exatamente sobre a data em si.
Nesse último 8 de março eu me peguei em uma reflexão que me confrontou. Um pensamento que entrou em choque com a própria ideia de existir uma data especial para lembrar algo tão essencial. Esse pensamento surgiu no momento em que eu homenageava minha esposa. Enquanto falava com ela, disse algo que saiu de forma muito natural: todos os dias são das mulheres. Todos os dias são para você.
E foi aí que parei para pensar.
Se todos os dias deveriam ser assim, por que precisamos de uma data?
A resposta que encontrei foi desconfortável, mas verdadeira. Precisamos de datas porque falhamos como seres humanos. Criamos marcos no calendário para não esquecer temas que deveriam fazer parte da nossa postura diária.
Quantas pessoas se tornam ardentes defensoras dos direitos das mulheres apenas no dia 8 de março ou na semana que o envolve? Quantas empresas levantam bandeiras nesse período não por convicção real, mas por mera obrigação de calendário? Quantos discursos surgem, quantos posts aparecem, quantas homenagens são feitas que desaparecem no dia seguinte?

E essa reflexão não se limita ao Dia da Mulher. Ela se expande para muitas outras datas.
Quantas pessoas só são netos no Dia dos Avós? Quantos só lembram de ser filhos no Dia das Mães ou no Dia dos Pais? Quantos só falam de respeito aos idosos no dia dedicado a eles? Quantos só lembram de combater o racismo no Dia da Consciência Negra?
Pense comigo com honestidade.
Se você precisa de um dia específico para viver o seu papel dentro de uma relação, algo está errado. Se o calendário precisa te lembrar de ser aquilo que você deveria ser todos os dias, então não estamos falando de princípios. Estamos falando de comportamento ocasional.
Quando alguém vive guiado por princípios, não precisa de lembretes no calendário.
Todo dia é dia de ligar para a avó que talvez já não fale coisa com coisa, mas que se emociona ao ouvir sua voz.
Todo dia é dia de mandar uma mensagem para o pai e dizer que o ama.
Todo dia é dia de tratar a mãe com paciência e carinho.
Todo dia é dia de respeitar quem é diferente de você.
Todo dia é dia de incentivar uma mulher a ser livre, forte e a viver todo o seu potencial.
Datas que lembram causas são importantes. Elas têm seu valor. Vivemos em um mundo imperfeito, formado por pessoas imperfeitas, e muitas vezes precisamos desses marcos para puxar certas conversas de volta para a mesa.
O ponto aqui não é discutir se a data é válida ou não. O ponto é outro.
Se você e eu dependemos dessas datas para lembrar de viver aquilo que deveria ser parte da nossa essência, então falhamos. Falhamos como seres humanos.
No Dia da Mulher eu fiquei feliz. Mas não porque tinha uma data para presentear minha esposa ou uma desculpa para levá-la para almoçar em um lugar bonito, com boa comida e uma vista incrível.
Fiquei feliz porque, conversando com ela, percebi algo simples e poderoso. Me dei conta de que, olhando para a nossa vida, todos os meus dias são vividos com a intenção de torná-la prioridade. Fiquei feliz porque percebi que o respeito, o cuidado e a valorização não aparecem apenas em uma data.
Eles aparecem todos os dias.
E isso vale para todas as mulheres com quem convivo. No trabalho, nas amizades, na família. O respeito não depende de calendário. A consideração não depende de um dia específico.
É libertador perceber isso.
É libertador entender que não precisamos de uma data para lembrar quem devemos ser. Que podemos viver princípios de forma constante. Que podemos fazer do respeito um hábito diário.
No fim das contas, talvez o maior avanço como sociedade não seja quando uma data se torna mais celebrada.
Talvez seja quando ela deixa de ser necessária para nos lembrar de algo que já faz parte de quem somos todos os dias.
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