Chegar à santidade e à canonização é resultado de um rigoroso processo conduzido pelo Vaticano, que envolve, entre outros critérios, a comprovação de milagres. Padre Ovídio de São Boaventura não ficou conhecido por feitos sobrenaturais. Sua história, porém, revela algo igualmente extraordinário: uma vida inteiramente dedicada à coletividade, à fé e às causas sociais.
Se não foi reconhecido como santo, viveu, para muitos, em santidade.
A história de Feira de Santana, dos primeiros tempos da vila dos Olhos D’Água à cidade de expressão regional dos dias atuais, é marcada por personalidades que contribuíram decisivamente para a construção da identidade e do desenvolvimento do município. No campo religioso, Padre Ovídio de São Boaventura ocupa um lugar de destaque pela atuação dentro da Igreja e, principalmente, pelo compromisso demonstrado com os problemas e as necessidades da população.
Nascido em Feira de Santana, em 23 de julho de 1842, Ovídio Alves de São Boaventura era filho do capitão Manuel Alves de São Boaventura e de Maria Joaquina de São Boaventura. Após concluir os estudos primários no município, seguiu para Salvador, onde ingressou no Seminário de Santa Tereza.
Desde cedo, demonstrou preocupação com as questões sociais e entendia que a religião também deveria estar comprometida com o bem-estar da comunidade.
Em agosto de 1864, aos 22 anos, foi ordenado sacerdote. No ano seguinte, foi nomeado Vigário Coadjutor do Vigário Colado da Freguesia de Santana. Em uma Feira de Santana que crescia e se transformava, Padre Ovídio passou a atuar não apenas no âmbito religioso, mas também em iniciativas voltadas à cultura, à assistência social, à educação e à organização comunitária.
Cultura e assistência social
Em 1873, criou a Sociedade Filarmônica Vitória. Naquele período, as bandas musicais tinham papel importante na vida cultural e religiosa das comunidades, sendo responsáveis pela presença da música em festas e celebrações.
Três anos depois, em 1876, Padre Ovídio fundou o Monte Pio dos Artistas Feirenses, considerado um dos primeiros organismos de caráter social de Feira de Santana.
A instituição atendia trabalhadores de diferentes ofícios, entre eles pedreiros, alfaiates, marceneiros, sapateiros, barbeiros, mecânicos, pintores e outros artesãos. Na época, esses profissionais eram chamados de “artistas”, uma vez que suas atividades eram classificadas como artes.
Outra importante iniciativa foi a criação do Asilo Nossa Senhora de Lourdes, em 1879, instituição que se tornou parte da paisagem e da história de Feira de Santana.
A atuação de Padre Ovídio também esteve relacionada à educação e à religiosidade. Entre as iniciativas atribuídas a ele estão a fundação da Ordem Terceira da Penitência de São Francisco, a criação da Escola Santana, a reconstrução da Igreja Matriz e a constituição de um aprendizado agrícola.
A luta contra a escravidão
Entre tantos capítulos da trajetória do religioso, sua participação na luta pela libertação dos escravizados ocupa lugar especial.
Padre Ovídio se posicionou em defesa da causa abolicionista e dedicou parte de sua atuação à luta pela liberdade. Morreu, entretanto, antes de testemunhar a abolição oficial da escravatura no Brasil.
O sacerdote faleceu em 1886, aos 46 anos. Dois anos depois, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea extinguiu oficialmente a escravidão no país.
Assim, Padre Ovídio não chegou a presenciar a vitória de uma causa pela qual havia lutado.
Uma presença que permanece
A memória do religioso permanece viva no centro histórico de Feira de Santana. Uma estátua em sua homenagem está instalada na praça que leva seu nome, ao lado da Praça da Catedral.
Segundo registros históricos, a obra teria sido produzida na França pelo artista francês André Jacques, por encomenda do intendente Joaquim de Melo Sampaio, que administrou Feira de Santana entre 1890 e 1892. A instalação teria ocorrido por volta de 1900, durante a administração de José Freire de Melo, segundo intendente do município.
Originalmente, a estátua ocupava o centro da praça. Posteriormente, foi transferida para o local onde permanece atualmente, durante uma reforma realizada no logradouro na administração do prefeito Newton da Costa Falcão, entre 1971 e 1973.
Mais de um século depois de sua morte, Padre Ovídio continua associado à história de uma Feira de Santana que encontrou, em sua trajetória, um religioso disposto a ultrapassar os limites do púlpito.



