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MICARETA: O CARNAVAL DE ABRIL AGORA EM NOVEMBRO - UM POUCO DESSA HISTÓRIA

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KARLA FERREIRA

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MICARETA: O CARNAVAL DE ABRIL AGORA EM NOVEMBRO - UM POUCO DESSA HISTÓRIA

Quem é feirense nato ou aqui radicado deve saber o que representa a micareta para a Cidade Princesa. Portanto, nunca é demais tratar desse tema, até porque, agora, em novo calendário, no mês de novembro, ao completar 89 anos, a festa deixa de ser “o carnaval de abril que sacode o Brasil”, mas sem perder a sua importância, pelo contrário, com a expectativa de sucesso ainda maior. Pela grandeza do evento, há muito a se relatar, mas vamos lembrar um pouco, e em especial, das escolas de samba que já não trazem a alegria dos bons tempos para a avenida

“Você pensa que cachaça é água? Cachaça não é água, não. Cachaça vem do alambique, a água vem do ribeirão.” Era assim que se brincava a micareta décadas atrás — talvez cinco ou seis, “um tempão” —, ou no tempo em que a festa era realizada no centro da cidade, mantendo ainda a candura dos primórdios, quando brincar era mesmo a razão da folia. Pierrôs, colombinas, toureiros, piratas, índios e princesas, durante três dias, tomavam conta de Feira de Santana que, sob o reinado de Rei Momo, gordo e bonachão, sorria satisfeito com a alegria dos seus súditos. Essa alegria também era estampada na fisionomia da rainha e das duas princesas. Eram realmente dias de alegria e de amor: “Bandeira branca, amor, não posso mais, pela saudade que me invade, eu peço paz!”

 

Mas não se pode falar da festa há meio século ou até um pouquinho mais sem lembrar as escolas de samba, batucadas, blocos de índios e os bloquinhos, formados por pessoas de uma mesma família, moradores de uma rua ou grupos de amigos. Não se trata de fazer comparações, o que seria despropositado, porque o tempo faz modificações profundas em tudo, e essa lei, se é que assim podemos qualificá-la, está presente igualmente nesse evento festivo. Aqui não se trata, sem dúvida, de fazer comparações desnecessárias, e sim de lembrar detalhes que foram e estão sendo apagados pelo carrossel do tempo.

 

Até por volta dos anos finais da década de 1960, a Rua Conselheiro Franco era o “quartel-general da folia”, como se anunciava nas emissoras de rádio, nos alto-falantes e nos jornais. Ali eram feitos os belos desfiles de escolas de samba e blocos. Na confluência dessa artéria com a Praça da Bandeira, bem em frente à lembrada Loja Pires — que já não existe —, era instalado o palanque onde ficava a comissão julgadora, constituída por jornalistas, artistas, músicos e autoridades.

 

Como ocorre nos grandes desfiles do Rio de Janeiro e de São Paulo, o trabalho da comissão julgadora era acompanhado com real interesse pela comunidade e, mais ainda, pelas entidades disputantes. Cada integrante conferia votos aos diversos itens, e o resultado final era anunciado, gerando grande expectativa, não deixando de existir as costumeiras reclamações, que fazem parte das disputas. A festa não passava das 22 horas, o que só veio a acontecer a partir da década de 1970.

 

Mesmo lutando com orçamentos inexpressivos, na maioria dos casos, dinheiro de dirigentes, amigos e alguns políticos — a Prefeitura dava pequena ajuda —, as escolas, inspiradas no que se via no Rio de Janeiro, procuravam fazer o melhor. Malandros do Morro, surgida no bairro do Pilão, no final da década de 1950, foi a primeira escola de samba a aparecer com evidência na cidade. Logo após, a ialorixá Mãe Socorro criou a Escola de Samba Escravos do Oriente, que passou a liderar e fomentar o segmento, provocando o nascimento de outras agremiações. Inteligente e habilidosa, Mãe Socorro, falecida em 2003, conseguia atrair as atenções da comunidade com boa divulgação da sua entidade nos meios de comunicação e organizar interessantes desfiles, mesmo sem contar com os recursos necessários.

 

A liderança da Escravos do Oriente, pelo esforço da ialorixá, foi fundamental e inspiradora para outros sambistas que, enfrentando as mesmas dificuldades estruturais, devido à falta de recursos financeiros, buscaram se organizar, surgindo com muita força e qualidade a Unidos de Padre Ovídio e a Marques de Sapucaí. Na década de 1970, a cidade viu os melhores desfiles de escolas de samba, incluindo ainda a pequena e bem organizada Juventude do Samba, Acadêmicos de Feira e a Império Feirense. Sem orçamento próprio, apegando-se à ajuda de amigos, adeptos do samba e a uma curta ajuda do governo municipal, as escolas de samba sofreram uma persistente desmotivação, mas contavam com um público fiel que acompanhava os desfiles e torcia pelos seus grupos preferidos.

 

Porta-bandeiras e mestres-salas eram atrações à parte, enriquecendo o préstito, enquanto as baterias procuravam dar um tom próprio, capaz de identificá-las à distância. O grande problema eram os custos. As fantasias, bem produzidas por experientes costureiras, obrigavam as escolas a gastos incompatíveis, assim como era difícil manter as baterias, que eram sempre reforçadas com músicos de Salvador, de onde também procediam várias atrações — sambistas e artistas. As escolas de samba foram perdendo espaço na festa de rua com a presença cada vez maior dos trios elétricos, o que atingiu de forma irreversível as escolas, a origem do evento, e ainda fragmentou instituições menores e mais recentes, como afoxés e blocos afros.

 

O Feira Tênis Clube, surgido em 1944, demandou a retirada de parte dos foliões da rua, o que também fez o Clube de Campo Cajueiro, a partir de 1962. Todavia, a presença nessas agremiações era mais restrita à sociedade ou àqueles que tinham poder aquisitivo alto. A grande massa de foliões estava mesmo nas ruas, com o reforço daqueles que, embora mais bem aquinhoados financeiramente, sentiam-se bem entre o povão.

 

Sem levar em conta o entrudo e o carnaval, eventos que precederam a micareta, oficialmente nascida em 1937, embora antes disso já houvesse um evento similar na Rua de Aurora, “promovido pelos rapazes da Família Fadigas”, como garantia Manuel de Emília (Manuel Faustos dos Santos), um dos fundadores da festa, o reinado de Momo na Cidade Princesa já experimentou diferentes fases até a sua consolidação como o chamado “carnaval de abril que sacode o Brasil”.

 

No início, a Cruz Vermelha de Salvador vinha a esta cidade, associando-se às agremiações locais: Amantes do Sol, Flor do Carnaval e As Melindrosas, no desfile que atraía a população. Está na história que a primeira festa foi realizada por uma comissão formada por Manuel da Costa Ferreira, Gumercindo Almeida, Arlindo Ferreira, Manuel Fausto dos Santos, Manuel Narciso da Natividade, Rosalvo França, Lindauro Lima, João Matos, Álvaro Moura e Adalberto Sampaio. Embora não integrando o grupo de forma direta, o professor Antônio Garcia, redator do Jornal Folha do Norte, foi importante na divulgação do evento.

 

Na festa de 1938, o clube A Flor do Carnaval desfilou homenageando a heroína feirense Maria Quitéria. No ano seguinte — 1939 —, a festa foi acrescida com o surgimento de novos grupos, que foram: Bambas Feirenses, Lira 25 de Abril, Garotas em Folia, Cadetes do Amor e Os Batutas. Em 1941, devido à II Guerra Mundial, não houve a festa de rua, limitando-se a bailes na Sociedade Filarmônica 25 de Março. Em 1942, houve uma festa tímida nas ruas e, em 1943, apenas bailes na Sociedade Filarmônica 25 de Março. Em 1944, bailes na mesma agremiação. Em 1945, uma tentativa fria de retorno do festejo de rua.

 

A “Micareta da Vitória”, em 1946, comemorando o final da II Guerra Mundial e a vitória dos Aliados, da qual fez parte o Brasil, através da Força Expedicionária Brasileira (FEB), contra o nazi-fascismo, foi expressiva nas Filarmônicas 25 de Março, Vitória e Euterpe Feirense, mas não alcançou o sucesso esperado nas ruas. Em 1948, a festa deu um salto, obtendo o êxito esperado. Em 1952, o festejo entrou no ritmo de sucesso que seria a sua marca definitiva. A partir daí, o surgimento de escolas de samba como Escravos do Oriente, Malandros do Morro, Embaixada Feirense, Império Feirense e o Cordão Ali Babá e os 40 Ladrões notabilizou a festa de rua, gerando concursos anuais para a escolha dos melhores.

 

Em 1962, comemorando 25 anos da festa (Jubileu de Prata), houve o retorno do concurso Rainha da Micareta e a vinda de fantasias premiadas no Rio de Janeiro, nos concursos do Copacabana Palace, Monte Líbano e Clube Municipal. Em 1964, devido à revolução, com o governo militar passando a comandar os destinos do país, não houve a festa, que voltou com animação em 1965. Vale lembrar que, durante muito tempo, o Rei Momo Ferreirinha vinha de Salvador.

 

Em 1938, a primeira Rainha da Micareta foi Maria Zilda Carvalho, escolhida durante baile na Sociedade Filarmônica 25 de Março. Esse critério foi substituído anos depois pelo sistema de eleição. Do mesmo modo, a festa era realizada por uma comissão. Em 1939, essa comissão foi formada por Antônio Azevedo (presidente), Hermógenes Santana (vice), Alfredo Rodrigues (tesoureiro) e Álvaro Barbosa (secretário), contando ainda com Áureo Filho, Oscar Erudilho, Gilberto Falcão, Iderval Alves, Antônio Moura Carneiro, João Domingues Gonçalves-Dote, Álvaro Santos Rubens, Florisvaldo Albuquerque, Dalvaro Silva, Antônio Garcia, Bráulio Flores e Alexandre Falcão.

 

Em 1968, no governo João Durval Carneiro (1967/1971), a Micareta, até então realizada por uma comissão de cidadãos da cidade, foi oficializada, passando a se constituir em um evento de responsabilidade do governo municipal, assim permanecendo até hoje. Quanto ao denominado “sítio da festa”, inicialmente foi na Rua Direita (Conselheiro Franco); posteriormente, no governo do professor José Raimundo Azevedo (1994/1996), passou para a Avenida Getúlio Vargas e, por fim, para a Avenida Presidente Dutra, onde está. Modificações geradas pelo expressivo crescimento da festa, tornando indispensável a ocupação de maior espaço físico.