“Inclassificáveis” propõe uma revisão crítica sobre a forma como a história da arte brasileira classifica e hierarquiza produções afro-brasileiras e que historicamente foram invisibilizadas. O ponto de partida da exposição é a rematriação de cerca de 100 obras que integravam um acervo mantido por mais de três décadas no Instituto Con/Vida, em Detroit, nos Estados Unidos.
O conceito “rematriação”, inspirado na reflexão do artista e pesquisador Ayrson Heráclito, amplia a ideia de repatriação ao compreender que o retorno dessas obras não significa apenas trazê-las de volta ao país, mas reconstitui seus vínculos com os territórios, as comunidades, as memórias e as manifestações socioculturais que lhes deram origem.
Os curadores Jamile Coelho - também diretora artística do MUNCAB - e Jil Soares destacam que muitas dessas obras nasceram em lugares que, durante décadas, permaneceram à margem dos grandes circuitos institucionais da arte e que, frequentemente, recebem classificações como "arte popular" ou "folclórica", apagando seus significados sociais, artísticos e políticos.

O percurso expositivo
O visitante irá imergir em pinturas carregadas de cores que promovem um ruído na hegemonia oficiosa das artes visuais e apresentam um ritmo não linear do cotidiano afrodiaspórico. Obras que trazem traços e linhas específicas de artistas como Eduardo Santos Silva e Mauro di Verde, que retratam as manifestações culturais presentes nos centros históricos de Salvador e de algumas cidades do Recôncavo Baiano.
Ainda restituindo sentidos, “Inclassificáveis” traz o abstracionismo geométrico de Babalu. As obras afro-barrocas de Raimundo Nonato e a santa ceia afro-brasileira de Sol Bahia e John Kinni dy. O sertão fantástico de J. Cunha, que leva o público a uma conexão afetiva com traços históricos urbanos e a vida rural.

Cotidianos
Caminhos. A Direita e à esquerda. Arcos dão acessos às “Escolas Invisíveis” - do Pelourinho e dos Artífices da Ladeira da Conceição (Salvador) e a de Cachoeira. Colocadas historicamente como espaços de artes não oficiais, “Inclassificáveis” apresenta obras criadas a partir da transmissão de conhecimentos entre gerações e profundamente conectadas a espaços-tempos historicamente invisibilizados.
Se caminha para a direita, adentra-se ao cotidiano do Pelourinho de algumas décadas atrás, que revelam um centro histórico muito além dos estereótipos da chamada "baianidade". Ruas, casarões, transeuntes, manifestações culturais, carnavais, a capoeira, o mar, pescadores e marinheiros, um conjunto de obras assinadas por artistas como Calixto Sales, Raimundo França, Tupinancy e outros.
Uma nova porta, adentra-se ao salão que é avenida carnavalesca com as pinturas afro-brasileiras de Alberto Pitta e J. Cunha. Um tempo para o respiro, a pausa para um diálogo cotidiano com o carrinho de café. Contempla-se e a frente um novo portal que nos leva ao salão em que movimentos e heróis sociais são retratados nas obras de Sol Bahia - o conselheiro, a Revolta dos Malês, Maria Bonita e Lampião - e de Alfredo Cruz - a Independência da Bahia - 02 de Julho, o Cangaço, e outras.

Recôncavo
Um regresso, voltemos ao salão das esculturas inspiradas na obra “Bois Tombados Pelo Patrimônio do Brasil”. Agora, à esquerda, há um outro portal, que dá acesso às obras afro-barrocas da Escola de Escultores de Cachoeira, iniciadas pelo artista Boaventura da Silva Filho, o Louco, que consolidou uma tradição escultórica em madeira que reúne referências do barroco e das cosmologias afro-brasileiras e indígenas, transmitida no cotidiano entre gerações de artistas contemporâneos - Doidão, Mimo, Dory, Roque Escultor, entre outros.
Dobra do Presente
A terceira escola é a de Artífices da Ladeira da Conceição - conhecida como Ladeira da Montanha -, em que artistas visuais como Zé Adário mantêm viva uma tradição em que a forja ultrapassa o ofício técnico e se articula com a arquitetura da cidade, com o sagrado-profano e a arte-sacra afro-brasileira contemporânea. Esta escola, como bem descreve o conceito curatorial, é “um lugar de mediação entre diferentes temporalidades”, em que o “presente não se dissolve: ele se dobra”.
Ao reunir esculturas, pinturas, gravuras e objetos que desafiam classificações ditas “convencionais”, Inclassificáveis propõe um olhar contracolonial sobre a arte visual brasileira contemporânea, principalmente a baiana, e provoca o público a refletir que essas produções não estão às margens da história da arte. A curadoria destaca que essas criações nos levam a pensar que possivelmente "a arte não precise ser popular, porque o povo — plural, complexo e criativo — já é, por si, arte". Vale pontuar que a exposição contém obras táteis para pessoas com deficiência visual e baixa visão.
--
Sobre o MUNCAB
O Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) é gerido pela Sociedade Amigos da Cultura Afro-Brasileira (AMAFRO), e consolida-se como uma instituição de referência nacional e internacional voltada à pesquisa, preservação e difusão das artes visuais afro-brasileiras, afro-diaspóricas e africanas sendo mantido através do patrocínio da Petrobras. O museu desenvolve programas de acervo, documentação, conservação e expografia dedicados à valorização e circulação da produção artística negra em suas múltiplas linguagens e temporalidades — da modernidade às práticas contemporâneas. Sua atuação contempla ainda ações educativas, formações, seminários e projetos de mediação cultural que buscam ampliar o acesso, fortalecer o pensamento crítico e estimular a participação social no campo das artes visuais.
Serviço
O quê: Exposição Inclassificáveis, de Jamile Coelho e Jil Soares
Onde: Museu Nacional da Cultura Afro-Brasileira (MUNCAB) – Salvador (BA), na Rua das Vassouras, 25, Centro Histórico de Salvador
Visitação: até 9 de agosto - de terça a domingo, das 10h às 17h (acesso até as 16h30)
Quanto: R$ 20 (inteira) e R$ 10 (meia), sendo as quartas e domingos gratuitas
Informações: www.muncab.com.br e @muncaboficial



