Quinhentas peças de roupa circularam entre 45 mulheres na noite desta quinta-feira (27), no Hotel Mercure Salvador Rio Vermelho, durante o Troca & Valoriza, encontro presencial do projeto Re-Valorize, do Instituto Por Elas, iniciado em Nova York durante o CSW, encontro da comissão de mulheres da ONU.
A edição soteropolitana, que superou em 50% o número de convidadas previsto, encerrou o ciclo brasileiro de 2026 — depois de Belo Horizonte, São Paulo e Brasília — e antecede a ida do projeto a Milão, entre 14 e 19 de setembro, com painel no Palazzo Lombardia, sede do governo regional italiano. O Instituto já estuda uma nova edição em Salvador, em outubro, depois da temporada europeia, já que a Bahia teve um dos maiores engajamentos do projeto.
A troca como método
O formato foge do modelo de palestra. As convidadas chegaram com pelo menos dez peças em bom estado, que passaram a circular em um espaço de curadoria montado no local. A programação começou com coquetel, seguiu com apresentação musical da cantora Fekile, falas curtas de anfitriãs e apoiadores, o momento de trocas e o encerramento em networking. O que não é trocado vai para mulheres atendidas pelo Instituto.
Até as lembranças da noite entraram na lógica do reaproveitamento: as bolsas distribuídas às participantes foram feitas com reúso de jeans e costuradas pela APAC, em trabalho de ressocialização de mulheres que passaram por privação de liberdade.
"Por que a gente faz essa loucura de estar em sete cidades? Porque temos redes, porque estamos juntas. Pessoas de cada comunidade que acreditam nelas e são diversas. Espero que cada uma tenha saído deste encontro sabendo que pode fazer o que quiser", celebrou Rizzia Froes, presidente do Instituto Por Elas.
Cor, memória e uma economia que já existia
A noite costurou moda circular a repertórios que a antecedem. Dete Lima, artista plástica, estilista e uma das fundadoras do Ilê Aiyê, falou sobre o que as cores vestem a deusa do ébano e integrantes do mais belo dos belos. "Antes do Ilê, a mulher negra não usava cores fortes, não usava vermelho porque ela era chamada de diabo. Hoje, o vermelho representa o sangue dos nossos antepassados derramado. O preto é a nossa pele. O branco é o alá que cobre nossas cabeças. E o amarelo é o ouro, o poder que todos nós queremos."
Ângela Guimarães, secretária da Promoção da Igualdade Racial e dos Povos e Comunidades Tradicionais da Bahia, deslocou a ideia de novidade. "Há um objetivo muito importante aqui nesta troca. O fortalecimento de uma economia que não é da ganância, do hiperconsumo, da exploração da natureza e do ser humano. Uma outra perspectiva que pode parecer novidade para muitos, mas são hábitos dos nossos mais velhos e mais velhas que já reaproveitavam e faziam essa economia circular."
Também participaram do encontro a advogada Jordana Sá Barreto, especialista em direito eleitoral e direitos das mulheres e uma série de mulheres engajadas em moda e moda circular como as estilistas Luciana Galeão e Lourrani Ribas, Rosi Ferreira, fundadora da Dasi, Sabrina Berger Mastroianni, do brechó Madame Berger, Giana Matiazzi, da Zoew Resortwear e Catarina Lima, do Ilê Aiyê.
Renda como rota de saída da violência
Apoiador da edição Salvador, o Hotel Mercure apresentou às participantes o Projeto Acolhe, que hospeda mulheres em situação de violência doméstica. "Quando a mulher vítima de violência procura os equipamentos públicos, nós as recebemos nas nossas unidades e elas ficam hospedadas, com todas as refeições, com seus filhos, até que a medida protetiva saia e ela possa retornar à sociedade. E ao mesmo tempo, elas recebem capacitação para que tenham independência financeira e possam se livrar do ciclo de agressões", explicou Thais Pradella, gerente geral dos hotéis Mercure e Ibis.
A articulação local da edição baiana teve a participação da jornalista especialista em futuro e inovação, Gabriela de Paula, “Toda vez que se fala em economia do futuro, alguém precisa perguntar quem foi convidada a construí-la. Salvador deu essa a resposta em forma de presença: mulheres que entendem que é possível um modelo que é ao mesmo tempo novo e consolidado na experiência das nossas antepassadas”, avalia.
O que o circuito soma
Com a edição baiana, o Troca & Valoriza soma 350 participantes e mais de 2.500 peças de roupa em circulação ao longo de 2026. O projeto foi apresentado em março em Nova York, em evento paralelo à Comissão sobre a Situação da Mulher da ONU (CSW), e passou por Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e Salvador. Agora segue para Milão e Veneza e pode retornar ainda este ano à Bahia.
Os valores arrecadados nas edições são revertidos integralmente para bolsas do Re-Valorize – Empreenda com Brechó, formação de 20 horas, 100% online, sobre curadoria, precificação, vendas e gestão. Pesquisa do projeto com 207 inscritas mostra que 97% já empreendem ou querem empreender, mas apenas 22% têm negócio formalizado; metade vive com até dois salários mínimos e 54% têm ensino superior ou pós-graduação. Mais de 40 mulheres estão em formação e o projeto já alcançou 18 estados brasileiros.
SOBRE O INSTITUTO POR ELAS
Organização da sociedade civil sem fins lucrativos dedicada à autonomia econômica e à proteção de meninas e mulheres, com atuação no Brasil e registro também nos Estados Unidos. É presidida por Rizzia Froes, advogada e mestre em Direito Internacional pela Fordham Law School (Nova York), membra emérita do Corpo Consular de Minas Gerais e integrante do grupo de trabalho do Ministério da Justiça no pacto contra o feminicídio.
Na Bahia, o Instituto realiza o Gaymar Por Elas, primeira Parada Náutica LGBTQIAPN+ do Brasil, na Ribeira e nas águas da Baía de Todos-os-Santos, e participa da execução do Oxe, Me Respeite nas Escolas, iniciativa de prevenção e enfrentamento das violências de gênero no ambiente escolar. Além do Re-Valorize, mantém projetos como Speak Por Elas, programa gratuito de inglês para lideranças femininas; Folia Por Elas, reconhecido pelo Prêmio BDMG de Empreendedorismo Social; e VIVA Por Elas. O Instituto também foi finalista do Prêmio Abrig Marco Maciel, voltado a boas práticas em Relações Institucionais e Governamentais.



