InícioNotíciasGERALANGÜERA: ANTIGO DISTRITO DE FEIRA CRESCE SEM ESQUECER O PASSADO
GERAL Redação

ANGÜERA: ANTIGO DISTRITO DE FEIRA CRESCE SEM ESQUECER O PASSADO

4 min de leitura35 visualizações
KARLA FERREIRA

Enviado por

KARLA FERREIRA
Sobre a origem do texto

Conteúdo submetido por assinante da redação do portal e revisto pela editoria.

ANGÜERA: ANTIGO DISTRITO DE FEIRA CRESCE SEM ESQUECER O PASSADO

A cerca de 40 minutos de Feira de Santana, Anguera preserva uma característica cada vez mais rara em tempos de grandes centros urbanos: cresce e se desenvolve sem abrir mão das memórias que ajudam a contar sua história. Em meio às transformações, a cidade ainda conserva o ritmo tranquilo de quem valoriza um “bom dia”, uma “boa tarde” e até mesmo o hábito de sentar na calçada para contemplar a lua e as estrelas.

Antigo distrito de Feira de Santana, Anguera conquistou sua emancipação política em 1965. Antes disso, era conhecida como Almas — denominação que, segundo a tradição local, está relacionada ao idioma tupi e ao significado de Anguera. A proximidade com Feira, atualmente de aproximadamente 38 quilômetros, contribuiu para estreitar ainda mais os vínculos entre os dois municípios.


Entre as vozes que ajudam a preservar essa memória está a do professor, escritor e mestre da Ordem Mística Atlantis (OMA), Leonídio Marchy. Nascido em Almas, ele passou parte da infância na localidade antes de seguir para Feira de Santana para continuar os estudos e, posteriormente, para São Paulo, onde viveu uma importante etapa de sua trajetória profissional.


A feira que permanece como tradição


Ao recordar a antiga Almas, Marchy destaca a tradicional feira-livre realizada aos sábados, atividade que ainda existe, embora tenha perdido parte da movimentação que possuía décadas atrás.


“Era um movimento grande. Vinham pessoas de toda a região, até mesmo de Riachão do Jacuípe”, relembra.


Para ele, a melhoria das estradas e a facilidade de deslocamento para Feira de Santana fizeram com que a feira assumisse uma característica mais comunitária e local. Mesmo assim, Leonídio defende sua preservação como parte importante da identidade de Anguera.


Além da função comercial, a feira representa um espaço de encontro entre moradores da zona rural e da sede do município. Um momento de convivência que, segundo o escritor, mantém um importante entrelaçamento social.


Educação e memórias da infância


As lembranças de Leonídio também passam pela escola primária, onde estudou na década de 1940. Entre as figuras que permanecem vivas em sua memória está a professora Eutrópia, que também era zeladora da Igreja de Nossa Senhora da Conceição.


“A escola ficava contígua à Igreja. Era uma mestra de métodos firmes, como era natural na época, e por isso lhe sou muito grato”, recorda.


As lembranças revelam uma Anguera de outros tempos, quando a vida comunitária estava diretamente ligada à igreja, à escola, à feira e às relações entre as famílias.


Agricultura movimentava a antiga Almas


A economia da região também fazia parte desse cotidiano. A agricultura de subsistência tinha papel importante, com o cultivo de feijão, mandioca, milho, batata-doce, abóbora e frutas. A criação de gado também representava uma atividade relevante.


Outro destaque era a produção de folhas de tabaco. Pequenos produtores comercializavam a produção com fazendeiros e proprietários de armazéns de Feira de Santana. Alguns agricultores ainda transformavam as folhas em charutos e fumo de corda, produtos que encontravam mercado nas feiras livres e nos armazéns.


A mamona também tinha espaço na economia local. Leonídio lembra a figura de João Mamona, comerciante que comprava o produto dos agricultores e posteriormente o revendia para fábricas de óleo.


“Ele comprava mamona dos ruralistas, qualquer quantidade. Era chegar e pesar. Ele pagava o preço de mercado ao produtor”, conta.


Famílias e personagens que marcaram a história


Ao reconstruir suas lembranças, Marchy também cita famílias tradicionais que contribuíram para a formação e o desenvolvimento da comunidade, entre elas Vieira, Bião, Bastos e Sofia Brandão.


Ele recorda ainda personagens que, mesmo não sendo naturais da localidade, passaram a fazer parte de sua história, como Manoel Galdino e a médica Helena, oriunda de Salvador e apontada por ele como, possivelmente, a primeira médica de Anguera.


Entre os personagens populares está também “Seu Rosa”, inspetor da Polícia Civil que ficou conhecido pela maneira peculiar de exercer sua autoridade.


“Seu Rosa era um homem de baixa estatura, que usava um enorme facão, maior do que ele, praticamente, que chegava colocando ordem. Uma pessoa difícil de ser esquecida”, relata.


Entre o passado e o desenvolvimento


Seis décadas após a emancipação de Feira de Santana, Anguera segue avançando, mas mantém características que remetem ao município de outros tempos. O desenvolvimento chega acompanhado de novas atividades comerciais, melhorias e expansão urbana, modificando espaços que antes faziam parte da paisagem rural ou das antigas referências da comunidade.


Um dos exemplos citados por Leonídio é a antiga Lagoa de Maria Luiza, que, segundo ele, hoje deu lugar a uma área comercial no centro da cidade.


A transformação da paisagem demonstra que Anguera está longe de permanecer parada no tempo. Ao mesmo tempo, a preservação das histórias, dos costumes e das lembranças de seus moradores mantém viva a identidade de uma cidade que nasceu como distrito de Feira de Santana e construiu, ao longo de seis décadas, sua própria trajetória.


Entre o crescimento e a memória, Anguera segue escrevendo sua história — sem esquecer as páginas que ajudaram a formar a cidade que exis

te hoje.


Portal Bahia Bahia — Por Karla Ferreira