Tenho pensado muito sobre a facilidade com que aprendemos a julgar e a dificuldade que ainda temos de compreender. Vivemos em uma época de opiniões instantâneas baseadas na primeira impressão. Basta uma fotografia, uma frase, uma escolha, um comportamento ou até um silêncio para acreditarmos que sabemos tudo sobre alguém. Criamos versões das pessoas a partir de fragmentos e, muitas vezes, emitimos sentenças sem conhecer os capítulos anteriores daquela história e os motivos mais profundos.
Cada pessoa traz consigo perdas, medos, escolhas equivocadas, frustrações, afetos, cicatrizes e batalhas que provavelmente jamais conheceremos por inteiro. É nesse território que entra a compaixão, que para mim, não é pena, é justamente olhar para alguém e pensar que, mesmo sem conhecer toda a sua história, posso escolher tratá-lo com humanidade. Aliás, eu não preciso conhecer todas as suas batalhas para escolher não tornar nenhuma delas mais difícil. Porque todo mundo está vivendo alguma batalha que não conseguimos enxergar por completo. E isso não significa que estamos passando a mão ou aceitando, significa apenas escolher não aumentar uma dor que já existe e que ela mesma não está sabendo lidar. Porque ninguém nesse mundo sene igual a você e não significa que seja maior que a sua dor ou o seu entendimento, mas que é diferente e pessoal com a sua história.
A pesquisadora Brené Brown, conhecida mundialmente por seus estudos sobre vulnerabilidade e empatia, associa a empatia à capacidade de nos conectarmos com a emoção presente na experiência de outra pessoa. Isso exige algo que parece cada vez mais raro: abandonar, ainda que por alguns minutos, a necessidade de julgar para tentar compreender. E compreender não significa concordar.
Posso ter compaixão por alguém e estabelecer limites. Posso perdoar e decidir não voltar. Posso compreender uma história e escolher não fazer mais parte dela. Essa talvez tenha sido uma das lições mais importantes que aprendi: compaixão não exige que eu permaneça onde me machuco. Mas existe uma dimensão ainda mais difícil dessa conversa: a maneira como tratamos a nós mesmos.
Somos capazes de compreender os erros de quem amamos e, ao mesmo tempo, passar anos condenando nossas próprias escolhas. Olhamos para trás com a consciência que temos hoje e cobramos da pessoa que fomos respostas que ela ainda não possuía.
A psicóloga Kristin Neff, referência internacional nos estudos sobre autocompaixão, propõe justamente que sejamos capazes de oferecer a nós mesmos a gentileza que normalmente reservaríamos a alguém querido diante do sofrimento ou do fracasso. Tenho aprendido a fazer isso com a minha própria história.
Já fiz escolhas que hoje faria diferente. Já permaneci quando deveria ter ido embora. Já confiei demais. Já me calei quando deveria ter falado e talvez tenha falado quando o silêncio teria sido melhor.
Mas existe algo que hoje compreendo: eu não posso julgar a mulher que fui usando apenas a consciência da mulher que me tornei.
Ela fez escolhas com aquilo que sabia, sentia e conseguia naquele momento. E talvez amadurecer seja também fazer as pazes com nossas versões anteriores. Não para romantizar erros. Não para fugir das responsabilidades. Mas para compreender que crescimento pressupõe mudança. Se hoje consigo enxergar diferente, significa que alguma coisa dentro de mim evoluiu.
Por isso tenho tentado praticar uma regra simples: antes de julgar alguém, lembrar que existe uma história que eu desconheço. E, antes de me condenar, lembrar que também existe uma história por trás de quem eu fui. E tudo que eu quero é tentar acertar...
O mundo já tem críticos suficientes e que nem são exemplos de nada. E Talvez esteja precisando de pessoas capazes de olhar umas para as outras com um pouco mais de humanidade. Pessoas que saibam estabelecer limites sem crueldade, discordar sem destruir, partir sem precisar ferir e reconhecer que ninguém atravessa a vida sem cometer erros. No fim, compaixão talvez seja compreender uma verdade muito simples:eu não preciso conhecer todas as batalhas de alguém para escolher não tornar nenhuma delas mais difícil e também não preciso continuar punindo a pessoa que fui para provar que aprendi com ela.
Posso simplesmente agradecer. Porque, com todos os seus erros, medos, escolhas e cicatrizes, foi aquela mulher que conseguiu me trazer até aqui.
No fim, talvez a nossa maior grandeza não esteja em vencer todas as batalhas, mas em passar pela vida sem nos tornarmos a batalha de alguém mais pesada.

